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     Área - EDUCAÇÃO

 

LEITURA NA KOMBI: UM CAMINHO PARA A LIBERDADE[1]

 

FLORES, Lucas Martins[2]

 

RESUMO

O domínio da leitura não só leva a ler bem, significa também a aquisição de um instrumento vinculado à totalidade da vida cultural do leitor, que deve ver a leitura como um importante meio de informação, trabalho, instrução, prática e entretenimento. Este projeto é uma atividade de extensão do Curso de Letras, com ações pedagógicas, na comunidade local, buscando desenvolver o gosto e hábito pela leitura e promover a inclusão social do cidadão. O projeto surgiu da necessidade de se trabalhar a leitura desde o lar, pois acreditamos que uma ação de incentivo à leitura é mais forte quando atinge todos os membros da família. Esta atividade é relevante na medida em que possibilita a interação da Universidade com a comunidade, levando até os bairros a literatura de forma lúdica. No momento em que se abre a uma comunidade carente a possibilidade de inclusão social a partir da leitura, possibilitamos a formação de cidadãos mais críticos e atuantes na resolução de seus próprios problemas. No projeto, são atendidos adolescentes e adultos, mas a criança é o foco principal do trabalho, pois ela precisa aguçar seu imaginário infantil, brincar com as personagens das histórias, perceber que os livros possibilitam viagens por diferentes épocas e locais, enfim, sonhar com um mundo melhor. Assim, esperamos que o trabalho com a leitura leve às pessoas carentes uma melhor possibilidade de vida, e aos acadêmicos de Letras a possibilidade de vivenciar a prática pedagógica e o exercício de cidadania através do voluntariado. A metodologia utilizada no trabalho é a do construtivismo e da cooperação: são realizados encontros semanais com oficinas de literatura, em que acadêmicos e comunidade interagem em atividades de dramatização, poesia, leitura e contação de histórias na Kombi Teca, uma biblioteca ambulante, em que a comunidade retira os livros para ler na oficina e em casa. Ao final de cada ano, visamos à publicação dos textos produzidos pelas crianças e à organização de uma biblioteca no bairro.

 Palavras-chave: Leitura – ludicidade - inclusão social

 

ABSTRACT

The domain of reading not only takes us to read well, but also means the acquisition of an instrument connected to the whole cultural life of the reader, who must understand the reading as an important way of information, work, instruction, practice and entertainment. This project is an extension activity of the Language Arts Course that aims to develop the taste and habit of reading with pedagogic actions in the local community and also provides the social inclusion of the citizens. The project has been started with the need to work the reading since their homes, because we believe that our actions are stronger when we work the reading with all the family members. This is a relevant activity as long as it makes possible to the University to interact with the community, taking them the literature in a dynamic way. When we take the possibility of reading and of social inclusion through the reading in a lacking community, we also make possible to develop critical citizens who can solve their own problems. We work with teenagers and adults, but children are our main public, because they need to stimulate their infantile imaginary, to play with the stories’ characters, to realize that the books can give us the chance to travel to any place, time, they need to dream with a better world. So, we hope that this reading job gives a better possibility of life to the poor people, and make possible for Language Arts Academics to live the pedagogic practice, and also, the exercise of citizenship through volunteer work. We use constructivism and cooperative methodology: there are some literature workshops once a week with the participation of the people and Academics as making theater, poetry, reading and telling stories at Kombi Teca, a traveling library that gives the possibility to the children to take some books to read there and at home. We wish to publish the children’s texts and to organize a library at this community at the end of one year of project.

 

Key- words: Reading – dynamism - social inclusion

 

Área Temática: Educação

 

 

1 Introdução

O desinteresse pela leitura vem inquietando os educadores, em especial os de Letras, pois, mais do que ninguém, eles sabem da importância da leitura para a formação de um cidadão crítico. Considerando que a leitura é um instrumento de acesso à cultura e aquisição de experiências e que o direito de ler significa igualmente o de desenvolver as potencialidades intelectuais, este projeto de extensão Leitura na Kombi: um caminho para a liberdade tem como principal objetivo desenvolver o gosto e hábito pela leitura.

Para isso, uma Kombi foi transformada em uma biblioteca ambulante, com aproximadamente 1600 livros, todos encapados e divididos em categorias, pois na Kombi há livros para todas as idades, embora seja dada mais atenção às crianças, pois, acreditamos que elas devem, desde cedo, aguçar o seu imaginário infantil, brincando com as histórias.

Também incentivamos o hábito de leitura nos adolescentes, que vivem uma fase em que outras atividades chamam a sua atenção e despertam os seus interesses. Essas atividades, em comunidades carentes, sem investimentos na educação e no esporte, geralmente são negativas, como drogas, violência, prostituição, etc. Faz-se necessário, portanto, que esses temas sejam discutidos com os jovens. E a literatura traz a possibilidade de levantar questões referentes a esses assuntos.

No primeiro semestre, trabalhamos na comunidade Corte Sete, próxima à Universidade. Nessa comunidade, participou ativamente do projeto um público de aproximadamente setenta pessoas. Toda terça-feira, levamos a Kombi Teca ao bairro, e em uma metodologia construtivista e cooperativa desenvolvemos oficinas artístico-culturais como: contar histórias, dramatizar, desenhar, reescrever, cantar, recriar, brincar. Esses trabalhos foram surgindo no decorrer das necessidades que detectávamos.

A partir de leituras na área, apresentaremos, neste artigo, reflexões teóricas sobre a prática exercida pêlos acadêmicos no decorrer do primeiro ano de existência do projeto.

 

2 Revisão da literatura e fundamentos teóricos

2.1 A importância da leitura

Não poderíamos deixar de citar a importância que a leitura traz para cada indivíduo, desenvolvendo suas potencialidades. Bamberger (1995, p. 13) afirma que "A leitura é um dos meios mais eficazes de desenvolvimento sistemático da linguagem e da personalidade. Trabalhar com a linguagem é trabalhar com o homem".

Nesse sentido, podemos perceber que as crianças que lêem têm um desenvolvimento intelectual mais significativo e, conseqüentemente, um rendimento melhor na escola, tanto como estudantes, como também no desenvolvimento de sua personalidade. Podemos verificar isso com casos de alunos que, no princípio, não se integrava com os demais e, no decorrer do ano, passaram a ter um melhor convívio com todo grupo.

Sabemos que melhoria do rendimento escolar ou das atitudes sociais das crianças não acontece rápida ou forçadamente. Sobre isso, Kramer (2001, p. 150) afirma que o ler e/ ou escrever não deve ser feito com constrangimento, mas como caminho de libertação. Paulo Freire, já nos anos de 1960, destacava a leitura como "prática de liberdade". Assim, acreditamos estar no caminho certo, afinal o próprio nome do projeto já diz - Leitura na Kombi: um caminho para a liberdade.

2.2 Ler é, antes de tudo, compreender

Quando a pessoa experimenta a leitura, ela executa um ato de compreender o mundo. O propósito básico de qualquer leitura é a apreensão dos significados fixados pelo discurso escrito, ou seja, a compreensão dos horizontes inscritos por um determinado autor, numa determinada obra. (Silva, 2000, p. 44).

Assim, ao levarmos as várias leituras aos participantes do projeto, levávamos, também, um pouco do mundo que palavras impressas poderiam proporcionar, realizando, um encontro de várias "viagens" no mundo fantástico das histórias. Silva, ainda, enfatiza que "compreender" deve ser visto como uma forma de ser. Com base nisso, principalmente as crianças vivem e encaram os mesmos problemas das personagens das histórias, passando elas a viver a narrativa.

Às vezes, quando nos deparamos com uma palavra pela primeira vez, seja um vocábulo estranho, uma nova gíria, ou uma palavra de uma língua estrangeira, adquirimos uma idéia aproximada do significado da expressão, a partir do contexto lingüístico em que ela é usada. Isto é, inferimos o significado dessa palavra nova a partir do contexto. Aos poucos, mediante novos encontros com a palavra, em outros contextos, vamos adquirindo uma idéia mais precisa do significado. Quando passamos a usar a palavra, então há uma transformação desse conhecimento inicial (Kleiman, 2001, p. 69).

Deste modo, acreditamos que, com o contato com textos variados proporcionado pelo projeto e, conseqüentemente, com a leitura, oferecida de forma prazerosa e dinâmica, torna-se mais fácil a compreensão dos vários textos que compõem o nosso cotidiano, pois a familiaridade com uma palavra dependerá da freqüência e intimidade de nossa convivência com ela.

2.3 Contação de histórias como prática prazerosa

Antigamente, as crianças e os jovens aprendiam com as histórias vividas e contadas pêlos seus pais, avós e parentes que compartilhavam suas experiências pela coletividade e, hoje, com a desvalorização dessas atividades familiares, essa foi dando lugar a outros interesses. Com intuito de revitalizar esses momentos tão importantes na vida de qualquer ser humano, surge a prática prazerosa e a mais usada entre as pessoas: o contar e ouvir histórias.

Contar histórias lidas, ouvidas, imaginadas; recriar histórias; contar histórias de ficção científica; de terror, mistério, surpresa, detetives e policiais; empregando resumos do realismo mágico e fantástico. Essas formas de comunicação sempre estiveram presentes na vida de qualquer pessoa. E, nas crianças, é mais perceptível, porque elas sentem a necessidade de contar suas descobertas, conforme nos apresenta Abramovich (1997, p. 16): "Ah, como é importante para a formação de qualquer criança ouvir muitas histórias... escutá-las é o início da aprendizagem para ser um leitor, e ser leitor é ter um caminho absolutamente infinitivo de descoberta e de compreensão do mundo..."

É ouvindo as histórias que a criança vai receber aquele conhecimento que, mais cedo ou mais tarde, utilizará na sua vida, em momentos que precise fazer escolhas, ou mesmo na sala de aula. No momento de escutar histórias, não só a criança como qualquer pessoa, pode sentir emoções variadas como tristeza, raiva, tranquilidade, entre outras e viver profundamente tudo o que as narrativas provocam em quem as ouve. A mesma autora explica que "ler é ouvir, sentir e enxergar com os olhos de imaginário!" (p. 17).

Quando contamos histórias para as crianças, elas ficam atentas, pois é um momento de magia que envolve a todos que estão naquele ambiente de fantasia, transformados pela voz do(a) acadêmico(a) contador(a) de história. Sobre isso, Elizagary (apud Abramovich 1997, p. 20) esclarece que o narrador precisa transmitir confiança, motivar a atenção e despertar admiração. Ele deve conduzir a situação como quem sabe seu texto e o tem memorizado, permitindo-se fazer variações sobre o tema, conforme o contexto e objetivo a ser alcançado.

Dessa forma, quando vamos ler uma história, seja qual for, não podemos fazer isso de qualquer jeito, com o primeiro volume que encontramos na estante. E, durante a leitura, devemos mostrar que estamos familiarizados com as palavras, pronunciando os nomes das personagens corretamente, demonstrando que percebemos a forma como o autor construiu suas frases. É preciso, ainda, observar a pontuação, realizando as pausas nos lugares certos.

Não devemos esquecer que ouvir histórias pode estimular o gosto por desenhar, musicar, pensar, imaginar, brincar, escrever ou até querer ouvir de novo a mesma história. Afinal, "tudo pode nascer de um texto" relata Abramovich (1997, p. 23). Esses são os objetivos perseguidos pelo nosso projeto, a fim de desenvolver habilidades diversas nas crianças, para melhorar seu desenvolvimento intelectual e social.

 

2.4 As condições sociais da leitura

A leitura tem um valor positivo absoluto: ela traz benefícios óbvios e indiscutíveis ao indivíduo e à sociedade - forma de lazer e de prazer, de aquisição de conhecimentos e de enriquecimento cultural, de ampliação das condições de convívio social e de interação. Com isso, os educadores, principalmente de leitura, devem questionar-se: por que não há acesso à leitura a todas as crianças, jovens, adultos em geral? Sobre isso, Bamberger (1995, p. 7) postula:

Há muito tempo se considera a capacidade de ler essencial à realização pessoal, e, hoje em dia, é cada vez mais aceita a premissa de que o progresso social e econômico de um país depende muito do acesso que o povo tem aos conhecimentos indispensáveis transmitidos pela palavra impressa.

Leitores iniciantes, independente da idade, poderão ficar desencorajados se a leitura não fizer parte do seu ambiente cultural ou não encontrarem ao seu alcance livros afinados com os seus gostos. Por isso, a Kombi da leitura nasceu com o intuito de fazer parte dos ambientes familiares das pessoas de classes menos favorecidas, levando, assim, um prazer a mais para suas vidas, o prazer das histórias, dos livros, enfim, o prazer da palavra impressa.

Infelizmente, há uma diferenciação entre os valores da leitura para as classes sociais. Zilberman & Silva (2004, p. 21) apresentam que já mostraram que, enquanto as classes dominantes vêem a leitura como "fruição", lazer, ampliação dos horizontes, de conhecimentos, de experiências, as classes dominadas a vêem como instrumento necessário à sobrevivência, ao acesso ao mundo do trabalho, à luta contra suas condições de vida. Verifica-se, então, a importância de mudar essa diferenciação de valores entre as classes, tornando, assim, a leitura um meio de prazer em todas as classes.

A leitura favorece a renovação das barreiras educacionais de que tanto se fala, concedendo oportunidades mais justas de educação, principalmente através da promoção do desenvolvimento da linguagem e do exercício intelectual e aumenta a possibilidade de normalização da situação pessoal de um indivíduo (Bamberger, 1995, p. 11).

Para muitas crianças a leitura está intimamente associada às atividades e exigências da escola, concluído o período de escolarização, muitas pessoas deixam de ler, porque a "vida" agora significa para elas algo muito diferente da escola. As dificuldades econômicas, como o desemprego, custo de vida, constituindo-se como mais uma barreira ao desenvolvimento da leitura junto à grande massa de brasileiros. O encarecimento do livro faz com que a leitura se transforme num verdadeiro "luxo", pois o poder aquisitivo numa sociedade desigualmente dividida, certamente discrimina. Portanto, verifica-se a importância da Kombi da leitura no meio social mais carente da cidade de Santiago - RS.

 

3 Objetivos

Neste primeiro ano de existência do projeto, todos os acadêmicos e professores participantes se empenharam para que os seguintes objetivos fossem alcançados:

-    possibilitar a reflexão sobre a importância da leitura;

-    refletir sobre a possibilidade de se atingir a liberdade pela leitura;

-    levar a leitura a todas camadas sociais, buscando a valorização do cidadão;

-    realizar ações que promovam a inclusão social.

-    integrar o Curso de Letras com a comunidade;

-    divulgar os valores artístico-culturais de acadêmicos do Curso de Letras;

-    capacitar os acadêmicos de Letras a trabalharem em comunidades carentes;

-    divulgar a Literatura às crianças, aos jovens e aos adultos;

-    incentivar o hábito da leitura;

-    despertar o imaginário infantil;

-    oportunizar situações que possibilitem a conscientização quanto à importância da leitura na construção de um cidadão livre;

-    incentivar a produção escrita das crianças e adolescentes.

 

4 Material e Métodos

A metodologia empregada é construtivista e cooperativa. São realizados encontros semanais para a troca de livros na Kombi e atividades artístico-culturais. As terças-feiras são marcadas pela presença de todas as crianças do bairro. Acontecem encontros em turno oposto ao que elas estudam. Assim, todas as crianças desse bairro manuseiam alguns livros durante a semana.

Nesses encontros, acontecem atividades variadas, com o objetivo de proporcionar às crianças um momento de contato com a Literatura Infantil de forma prazerosa e envolvente, fazendo com que elas próprias notem a importância que a leitura possui na vida dos cidadãos. Dramatização de histórias, teatro de fantoches, declamação de poesias, contação de histórias, danças e músicas, brincadeiras e várias festas constituem um incentivo ao gosto e hábito pela leitura.

No início, as atividades eram elaboradas pelo bolsista, com a ajuda dos outros acadêmicos participantes, sob orientação dos orientadores. Mas, com o passar do tempo, os encontros passaram a ser elaborados por duplas de acadêmicos com a ajuda do bolsista, sob orientação das professoras orientadoras.

 

5 Resultados

O projeto Leitura na Kombi: um caminho para a liberdade participou ativamente no bairro Corte Sete, durante todo o ano, levando a Kombi com atividades lúdicas (peças teatrais dos livros, contação de histórias, brincadeiras, enfim, atividades de incentivo à leitura) a algumas escolas da cidade de Santiago como: Escola Alceu Carvalho, Monsenhor Assis, Lucas Araújo, Anjinho Travesso, Escola da URI, Manoel Abreu, João Evangelista e todas as escolas municipais da cidade de Bossoroca, que está localizada, aproximadamente, a 100 Km de Santiago.

Dentre as atividades lúdicas realizadas, não podemos deixar de citar os lançamentos dos livros da Reitora Mara Rõsler: um realizado na Escola da URI Santiago, ainda no início do projeto, onde a Kombi esteve presente com uma participação, em que colocamos à mostra os trabalhos escritos, feitos pelas crianças do projeto com base no livro "Histórias Missioneiras para Crianças" publicado na época; o outro livro "Meu Trem de Carretel", lançado no mês de Junho, na "V Semana Acadêmica do Curso de Letras: Lendo o Mundo com Criatividade", em que a Reitora pôde presenciar várias atividades referentes a seu livro, sendo uma delas um teatro apresentado pelas crianças do Projeto.

No bairro Corte Sete, nosso principal público-alvo, os resultados foram imediatos. O lançamento do projeto aconteceu em um Domingo (22 / 08 / 2004), em que todos os moradores (pais e filhos) do bairro foram convidados, a fim de que eles conhecessem a Kombi Teca. Nesse dia, uma peça teatral do Sítio do Pica-Pau-Amarelo foi apresentada, juntamente com brincadeiras, apresentação da Kombi e suas principais normas para que o projeto pudesse funcionar conforme o desejado. As atividades do projeto passaram a acontecer todas terças-feiras. Quando a primeira terça chegou, as crianças e vários pais foram ao encontro, mostrando interesse pelo projeto.

No decorrer do semestre, estávamos todos empenhados para que cada encontro fosse melhor, com dinâmicas alegres e diversificadas, escolhidas e realizadas, conforme a necessidade das crianças. Graças a isso, as crianças passaram a ler cada vez mais, descobrindo, assim, o mundo mágico que há por trás das histórias infantis.

No final do primeiro semestre, questionamos, em uma conversa informal, os participantes - pais e crianças - sobre o que eles estavam achando do projeto. Suas respostas foram positivas, eles afirmaram não saber como seria o bairro sem o projeto, dizendo que "a Kombi Teca é nossa e de mais ninguém". Isso nos mostra que eles gostam da Kombi e, principalmente, dos livros, dos encontros, e de todos os acadêmicos, que já estabeleceram uma relação de amizade com as crianças e com o pessoal do bairro.

Entre esses questionamentos, alguns comentários, entre crianças, pais e professores nos fizeram sentir realizados pelo trabalho deste ano. Uma mãe comentava conosco que seu filho havia repetido o ano na primeira série, porque não aprendera a ler, mas depois de começar a manusear os livros da Teca, suas dificuldades foram amenizadas, graças à maior freqüência de contato com as letras.

Ainda no primeiro semestre do Projeto, um outro comentário marcante foi o da mãe que pertencia ao programa de alfabetização de adultos e estava aprendendo a ler, assim como o seu filho, que estava na primeira série. Ela começou a ler os livros de seu filho em casa e teve a iniciativa de levá-los para a sala de aula. A professora pedia à mãe para ler as histórias todos os dias de aula, então, a contação de histórias passou a acontecer na sala de aula. No final de cada leitura, a professora elogiava a mãe e completava dizendo que o desempenho da mãe melhorava com os livros e que ela deveria ler freqüentemente. Verifica-se a possibilidade que o projeto oportuniza a pais e filhos construírem conhecimento juntamente.

Em relação aos acadêmicos participantes do projeto, os resultados são notáveis. Aquele medo de falar em público como docentes, orientadores de um trabalho, foi superado graças à prática que o projeto oportuniza. Outra habilidade desenvolvida por alguns acadêmicos é a de contar histórias.

5.1 Discussão dos resultados

Após um ano de atividades realizadas no projeto, podemos dizer que acadêmicos, bolsista e professores participantes do projeto cresceram muito com as experiências adquiridas. Os acadêmicos foram sempre atenciosos e prestativos na organização do projeto e com as crianças, o que resultou em um carinho enorme e uma relação de confiança entre o grupo

Aquelas crianças que pareciam desmotivadas no início do projeto, hoje possuem um convívio de amizade, carinho por todos os participantes. Isso mostra que a leitura, se bem trabalhada, pode modificar sociedades, incluindo cidadãos críticos e atuantes na sua comunidade.

Outro ponto relevante é quanto à escrita das crianças. Os primeiros textos produzidos mostravam problemas próprias de crianças que não possuem hábito de leitura. Mas, com o passar do tempo, esses textos foram adquirindo qualidades que antes não havia, graças ao despertar do hábito de leitura proporcionado pelo projeto. Isso mostra a importância de compreendermos um texto, sua idéia principal, sabermos distinguir opiniões, criar e recriar com as leituras.

Mediante esse tipo de prática, a leitura retoma sua condição de prática social, uma vez que o leitor se coloca como sujeito, não apenas objeto de ensino. Nessas condições, a leitura se transforma em interação, isto é, numa relação entre o autor e o leitor, podendo esse discordar ou aceitar, formando-se, com base nisso, leitores críticos e atuantes.

Acreditamos que uma série de medidas precisam ser tomadas para que, de fato, todos tenham acesso à leitura no país. Sabemos que a falta de hábito de leitura assume proporções que extrapolam as limitações e/ ou capacidades individuais. Já que esse problema tem uma constituição histórica e é decorrente das formas de organização de nossa sociedade, cabe a nós educadores refletirmos, até que ponto participamos dessa constituição e como podemos agir para reverter essa situação.

Certamente, não existem receitas, nem soluções simplistas ou mágicas para a mudança desse quadro que tem acompanhado a sociedade brasileira ao longo de sua história. Contudo, existem respostas. Compete à escola e à sociedade dar a todas as crianças uma oportunidade igual, explorando as possibilidades de leitura de cada criança, principalmente, as crianças cujas experiências não foram dirigidas positivamente para a leitura.

Ser bolsista deste projeto, torna-se um aprendizado constante. Tudo iniciou antes da efetivação do projeto, quando os acadêmicos estavam encapando os 1600 exemplares, momentos em que aconteciam umas "viagens" pelas histórias, despertando o nosso próprio imaginário. Durante o primeiro semestre, com o artigo publicado na Fames - Santa Maria, o bolsista passou a pesquisar sobre o tema, lendo teorias sobre contação de histórias e outras dinâmicas de leitura, o que muito auxiliou na realização das atividades práticas.

Assim, ser bolsista e trabalhar neste projeto é uma conquista que nos leva para um contínuo aprendizado, nos dando conhecimentos práticos e teóricos como futuros profissionais e como pessoas melhores, como verdadeiros cidadãos. Observamos o entusiasmo das crianças e adolescentes nas atividades realizadas e o crescente interesse pela leitura. Acreditamos que esses são os fatores essenciais para a formação do hábito de leitura, o que reforça a necessidade de continuação do projeto.

 

[1] Artigo – projeto de Extensão “Leitura na Kombi: um caminho para a liberdade”

[2] Acadêmico do VI Semestre do Curso de letras da URI – Santiago – Bolsista de Extensão orientado pelas professoras Mestre Sandra M. N. Oliveira e Silvania Faccin Colaço.

 

 

7 Bibliografia

ABRAMOVICH,   Fanny.   Literatura   Infantil:   Gostosuras   e   bobices.   Scipione. Pensamento e ação no Magistério. 1997.

BAMBERGER, Richard. Como incentivar o hábito de leitura. Abril, 1995.

FREIRE,   Paulo.   Pedagogia   da  autonomia: saberes  necessários  à  prática educativa. São Paulo. Paz e Terra, 1996.

KLEIMAN, Angela. Oficina de leitura: teoria e prática. 2a ed., Campinas, São Paulo: Pontes, 2001.

KRAMER, Sônia. Alfabetização Leitura e escrita: Formação de professores em curso. Ática. 2001.

SILVA, Ezequiel Theodoro da Silva. O Ato de Ler: fundamentos psicológicos para uma nova pedagogia da leitura. Cortez. 2000.

ZILBERMAN,   Regina.  SILVA,   Ezequiel Theodoro da.  Leitura - Perspectivas Interdisciplinares. Ática. 2004. 

 

Vivências, Erexim. v.1, Ano1, nº 2, p. 122-134. Maio, 2006; ISSN: 1809-1636