CONTORNOS IDENTITÁRIOS DE MOÇAMBIQUE NA TEXTUALIDADE PÓS-COLONIAL D’O OUTRO PÉ DA SEREIA[1]

 

Identity outlines of Moçambique in the post-colonial textuality “D’o outro pé da sereia”

 

Rejane Seitenfuss GEHLEN[2]

 

 

RESUMO

O presente trabalho volta-se à temática dos estudos pós-coloniais nas literaturas de expressão portuguesa, em especial na obra O outro pé da sereia, do moçambicano Mia Couto. Busca-se identificar no texto ficcional os registros de oralidade, os aspectos culturais e as especificidades da poética da literatura miacoutiana em seu objetivo de construir uma identidade na arte e  na nação. A abordagem teórica enfoca os elementos linguísticos e culturais constitutivos de africanidade que se destacam na pós-colonialidade: a língua do colonizador, permeada por vozes locais, e os costumes que oscilam entre o passado tribal e a tecnologia advinda da globalização. Através da enunciação de diferentes modos de textualidade e da  intertextualidade, o romance revela o hibridismo resultante do diálogo de diferentes culturas em distintos momentos da história de Moçambique. O imbricamento de duas narrativas mostra o encontro do passado  colonial, que não pode ser negado, com o presente da pós-independência, da guerra civil e da necessidade de reconstruir o país e a identidade dos cidadãos moçambicanos.

 

 

ABSTRACT

This paper faces to the theme of post-colonial studies in the Portuguese Expression Literatures, especially in the work O outro pé da sereia, wrote by the Mozambican Mia Couto. It searches to identify in the fictional text the orality registers, cultural aspects and the poetic particularities of miacoutiana literature in its objective of constructing an identity in the art and nation. The theoretical approach points out the linguistic and cultural elements constitutive of africanidade which are emphasized in the post-colonialism: the colonizer language, permeated by local voices and costumes which oscillate between the tribal past and the technology resulting from globalization. Through the enunciation of different ways of textuality and intertextuality, the novel reveals the hybridism resulting from the dialogue of different cultures in different moments of Mozambique history. The coupling of two narratives shows the past colonial meeting, which can’t be denied, with the present of post-independence, the civil war, the need of the country reconstruction and the identity of mozambican citizens.

 

 

A viagem não começa quando se percorrem as distâncias,
 mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores.
Mia Couto

 

            Buscar a si mesmo é traço marcante de um momento em que as fronteiras geográficas, histórias, políticas, ideológicas e culturais se redefinem. Nesse contexto, a questão da identidade  é evocada com frequência, tanto no plano do indivíduo quanto no da nação. As literaturas dos países africanos de língua portuguesa do período pós-colonial revelam afinidade com o estabelecimento de uma identidade ao mesmo tempo africana, mas que mantém a individualidade de cada país.

            No presente estudo, toma-se como objeto de análise a obra O outro pé da sereia, do escritor moçambicano Mia Couto, buscando nela identificar a presença dos elementos mais representativos da literatura do pós-colonialismo. A partir dos anos setenta, esse termo  é usado por diversas áreas de estudo para discutir e analisar os efeitos culturais da colonização, estendendo-se às práticas discursivas em que há resistência à ideologia colonialista.

            Nesta abordagem, é considerada a África de língua portuguesa, e, de forma mais atenta, Moçambique. Ana Mafalda Leite, na análise das literaturas africanas e formulações pós-coloniais, afirma que “os estudos teóricos de pós-colonialismo tentam enquadrar as condições de produção e os contextos em que se desenvolvem as novas literaturas”(LEITE, 2003, p. 13), as quais  não são vistas como extensões da literatura europeia,  pois refletem práticas culturais e sua imbricação com as relações de poder.

            O entendimento do pós-colonialismo na área africana de língua portuguesa requer pesquisa sobre a especificidade, os registros de oralidade, aspectos culturais e uma poética diferenciada das literaturas das ex-colônias portuguesas. Mais do que buscar as características próprias dos textos dos  escritores africanos é importante que se perceba a simultaneidade de constituição de uma identidade na arte e na  nação.

            No período pós-colonial, o hibridismo linguístico é uma das mais significativas características  da  textualidade  africana. A  língua do  colonizador, da  qual  os escritores   se

apropriam, é permeada de falas peculiares e próprias das diversas nacionalidades africanas de colonização portuguesa. Estabelece-se uma maneira particular de dialogar com as tradições, incorporadas ao texto sob forma de intertextualidade e também pela recriação sintática e lexical. O resultado desse processo é a recuperação de gêneros orais e  a reformulação da própria tradição. As literaturas africanas de expressão portuguesa criam um novo campo literário, fazendo “coexistir, na maleabilidade da língua, a escrita com a oralidade, numa harmonia  híbrida, mais ou menos imparável, que os textos literários nos deixam fruir”(LEITE, 2003, p. 21).

            No período pós-independência das nações africanas de língua portuguesa, é muito comum a busca pela ocupação de lugares, vozes e consciências do período colonial e mesmo pré-colonial, entretanto vivos na atualidade, porque são elementos constitutivos das identidades nacionais e, numa dimensão mais ampla, da própria africanidade. O processo da descolonização até o pós-colonial (incluindo-se o período das tardias independências e as guerras civis ocorridas em alguns países), segundo Laura Cavalcante Padilha (2002), requer uma abordagem e diálogo com o mundo global, onde novos espaços são abertos. Os significantes desses novos espaços apontam para a concepção de uma cultura híbrida africana, para o equilíbrio entre o tradicionalismo e sua adaptação ao mundo globalizado e, por  último, para a recusa das instituições e significações do colonialismo e dos tempos pós-independência. “O período que se segue à descolonização e à emancipação política é um momento ainda caracterizado por uma retórica circunstancialista, de incidência imediatista porque celebrativa: pouco depois os ‘sóis das independências’ começaram a pôr-se e os ‘sóis das ditaduras’ começaram a brilhar” (LEÃO, 2003, p. 49).

            Uma nova luta se inicia e os escritores africanos buscam repensar o projeto de nação e identidade nacional. Mais que independência política, busca-se, nas raízes da tradição ressignificadas à luz dos novos tempos, a independência cultural, a democracia e a reconstrução após a guerra civil. A literatura revela uma trajetória que reflete e analisa a História: o encantamento pela liberdade (utopia), o desencantamento com as ditaduras (distopia), a indiferença (atopia) e o reencantamento presente nos textos através de abordagens estéticas criativas e da conscientização sobre a necessidade de ressignificar os valores nacionais.

            Mia Couto, ao misturar vida e arte, desenvolve seu projeto de nacionalismo, sobretudo, de moçambicanidade. Exemplo desse tipo de escrita é O outro pé de sereia, romance que, ao resgatar e afirmar as tradições culturais, reconta a história de seu país, viajando de 1560 a 2002 através de duas histórias que correm paralelas, como dois rios que afluem para a mesma foz: a História de Moçambique. A obra literária em estudo apresenta duas ousadas travessias que revelam o contexto social, político e histórico do país. A primeira viagem é a dos padres portugueses, que visam evangelizar um território, e a outra é da personagem Mwadia, que procura descobrir um lugar para abrigar a imagem da Santa ou Kianda encontrada no rio Zambeze.

            Nessa viagem de regresso a sua cidade, Mwadia não encontra o lugar desejado porque não há mais igrejas ou prédios inteiros em Vila Longe, o que descobre é sua própria história. Muitas outras histórias vão sendo descortinadas à medida que as personagens revelam sua vida e a história do próprio país, desiludido após a utopia do paraíso pós-independência e arrasado pela guerra civil. A literatura pós-colonialista e, assim, O outro pé da sereia, revela “o abandono do grande projeto, da grande ação e, em consequência, do grande relato, a estética do precário e quem  sabe, ao final, a História ela mesma se possa reescrever”(LEÃO, 2003, p. 51). Nesse sentido, as literaturas dos países africanos de língua portuguesa revelam uma consciência que evoluiu de sua condição nacionalista para a condição de cidadania e que, por isso, situa o indivíduo em seu território. Essa visão pós-colonial pressupõe uma nova perspectiva acerca da sociedade que reflete sobre sua própria condição periférica tanto estrutural quanto conjunturalmente.

            Tal como a literatura anti-colonial mobilizou estratégias contra a discursividade do centro, a atual escrita mobiliza estratégias contra-discursivas, opondo-se ao discurso hegemônico. Opta-se por apresentar a alteridade através do despertar de vozes e memórias que não têm lugar nos textos consagrados. Um dos pontos em que esse aspecto pode ser observado é no uso que os escritores fazem da língua portuguesa. Não se trata de uma africanização da língua do colonizador, mas de situá-la em territórios de África e deixá-la à mercê de diversas influências e intercâmbios. Essa característica é observada na obra literária em questão através da valorização da oralidade, dos provérbios e de elementos em que a recuperação identitária revela raízes culturais que desafiam a língua da pátria-mãe. Cabe destacar que essas raízes transcendem o plano linguístico e  refletem a cosmovisão de ser africano.

            Em O outro pé da sereia, Mia Couto utiliza a fonte do tipo itálico para assinalar os diálogos das personagens ao longo da narrativa. Apesar da diferença tipográfica, não há distância entre a fala das personagens e a fala do narrador, afora a organização discursiva. A obra apresenta vasta incorporação do léxico local, tanto na fala das personagens - “O que fazia  com esse muana?” ou “Sou quizumba para mexer em osso já mortos?” -   como também no discurso do narrador: “era uma canoa feita de um tronco de mbawa e estava oculta ente os caniços da margem”( COUTO, 2006,  p. 77). Além da presença de falas características de Moçambique, verifica-se também a utilização de termos da língua de Goa na parte da história que transcorre no século XVI. Como exemplo, cita-se a fala da personagem Dia ao dirigir-se a Nimi Nsundi: “Você não passa de um Firngi” ( COUTO, 2003, p. 130). Alguns termos são explicados em notas de rodapé, outros precisam ser deduzidos pelo contexto. Estabelece-se assim um diálogo entre as línguas indiana, africana e portuguesa.

            O escritor elabora uma poética na qual utiliza recursos linguísticos como criação de neologismos: desortográficos ( COUTO, 2006, p. 125); Singério , nome atribuído ao auxiliar do alfaiate e “Nós somos almas depenadas” (COUTO, 2006, p. 128). Mais do que um jogo de criação, a significação das palavras é constitutiva da temática da obra. A expressão “depenadas” refere-se aos moradores de Vila Longe que vivem entre as ruínas  da guerra civil. Antes disso, no processo de colonização, foram destituídos de sua cultura; são, portanto, um povo “depenado”, sem pertences, sem história e sem identidade. Aspecto esse, também evidenciado na fala da personagem Arcanjo Mistura: “Estas casas não foram destruídas. Estas casas morreram. [...] O mal é que nós não habitamos essas casas: apenas as ocupamos” (COUTO, 2006,  p.143). Tais palavras oscilam entre a ironia e o humor, contribuindo para dar ao texto um marcado aspecto de originalidade.

            A utilização e alteração de provérbios é outro aspecto a ser considerado: “Eu conheço-a como a palma da minha mãe” (COUTO, 2006, p. 84); “Diga-me de paisagem, Constança: eu estava me bonitando para si” (COUTO, 2006, p. 229), ou ainda “É que isto em Vila Longe vai de animal a pior” (COUTO, 2006, p. 105). A ironia alia-se ao humor e provoca, à primeira vista, estranhamento. Contudo, a análise e contextualização desses provérbios revela a presença da tradição e a valorização da oralidade. Atitude de recorrência ao saber do grupo social, “a enunciação de um provérbio pode ser pensada como um gesto de atravessamento, realizado pela voz do saber popular, por entre a voz do enunciador, com a qual estabelece uma relação dialógica [...] O provérbio pertence ao repertório artístico da textualidade oral e representa o saber da tradição”(MATA, 2003. p. 70). A referência a provérbios, bem como a ditos  populares, pode revelar uma voz oracular que prediz o futuro das personagens, como os utilizados pelo narrador para referir-se, respectivamente, ao destino de Mwadia e Zero: “dá azar um homem deixar de ver as sua própria sombra” ou “Quem parte treme, quem regressa teme” (COUTO, 2006, p. 22 e 68) .

            O emprego de provérbios também pode exercer uma função desconstrutiva e irônica do conteúdo, produzindo um efeito de zombaria, sugerindo a desconstrução de papéis  narrativos através da ironia. Pode-se ainda afirmar que, ao utilizar provérbios e frases feitas, Mia Couto não só remete o leitor à reflexão como o desafia a participar de uma espécie de duelo verbal pois, no jogo de provérbios, é preciso superar o outro com uma citação de maior sabedoria. É mais uma marca da oralidade no texto miacoutiano que, de acordo com Ana Mafalda Leite, recria o real  através de uma “língua  literária  sustentada  por  uma exuberante criatividade lexical e  uma sintaxe que faz ponte entre a oralidade e a pura invenção, em que o contexto comunicativo, estético, possibilita a partilha da mensagem de ruptura”(LEÃO, 2003, p. 293) .

Outro recurso de estilo utilizado por Mia Couto é o emprego de epígrafes no início de cada capítulo. São citados versos de Camões, fragmentos de cartas de D. Gonçalo da Silveira, versos de canções de tribos locais, pensamentos do barbeiro de Vila Longe, Arcanjo Mistura, entre outros. O barbeiro é a voz da resistência contra a nova aculturação. Consciente das perdas culturais e identitárias já sofridas, o ex-soldado pela independência revela sua posição de enfrentamento em diversas passagens, especialmente quando da chegada do casal de afroamericanos. “Primeiro perdemos a lembrança de termos sido rio. A seguir, esquecemos a terra que nos pertencera. Depois da nossa memória ter perdido a geografia, acabou perdendo a própria história. Agora não temos nem sequer ideia  de termos perdido alguma coisa” (COUTO, 2006, p. 284). O adivinho Lázaro Vivo, o alfaiate Jesustino são também citados nas epígrafes, além de outras personagens da obra e personalidades portuguesas, assinalando o entrecruzamento de histórias, culturas e tempos.

            Entretanto, o recurso linguístico que confere maior literariedade  ao texto coutiano em questão é o emprego de metáforas e a criação de imagens poéticas que revestem o texto de singular beleza. Como na fala de Mwadia, ao fixar o olhar na “luz viúva” : “A lua hoje está cheia de pólen”(COUTO, 2006, p. 19). A imagem remete à solidão e saudade vividas pela personagem. Outro exemplo: “Cinco pequenas anacondas lhe fizeram estancar o sangue” (COUTO, 2006,  p. 138), referindo-se ao medo da americana quando segura a mão do marido durante o voo a Moçambique. O autor inova o sentido das palavras, dando-lhes conotações próprias, revitalizando a linguagem num processo dinâmico e criativo, que ultrapassa o plano do discurso e revela a cosmovisão de quem escreve. A obra apresenta duas narrativas que se imbricam, dois tempos que se encontram. A personagem Mwadia, cujo nome em sinhugwé significa canoa, é encarregada de encontrar um  lugar sagrado para a estátua de Nossa Senhora, abençoada pelo papa, trazida de Portugal em 1560 e resgatada do Rio Zambeze em 2002. A cultura portuguesa ressurge através dos escritos encontrados junto à Santa, Mwadia lê as cartas e a voz local faz ecoar aos americanos e à população de Vila Longe o passado que é ao mesmo tempo presente.

            É Mwadia, a canoa, que une as duas margens da história de Moçambique. Nessa reconstrução, constrói-se a si própria, porque reencontra sua história e aprende a cicatrizar suas feridas. A missão de Mwadia não pode ser plenamente realizada porque não existe mais um lugar sagrado para guardar a imagem, a guerra não deixou paredes inteiras. Uma característica ambivalente dessa obra reside na imagem que dá mote à história. Nossa Senhora, para os portugueses católicos, é transformada em Kianda ou Nzuzu, divindade das águas, quando o escravo Nimi Nsundi pretende cortar-lhe os pés para assemelhá-la à sereia, entidade mítica dos africanos. Acusado pela ama Dia de negar a identidade, Nimi arrisca a vida para devolver a imagem à água, seu lugar de origem. A tarefa não concluída deixa a imagem no limiar de ser deusa ou santa. A leitura do texto revela que é santa e deusa, congruência dos dois  mundos que coexistem num único espaço, onde os limites entre o real e a fantasia são muito tênues.

            Os exemplos citados demonstram que a singularização de cada personagem contribui para a construção de uma identidade coletiva resultado de uma cultura híbrida. Trata-se, segundo Inocência Mata,

 

de um processo de recriação de desenredos verbais a que se segue a incorporação de saberes não apenas lingüísticos mas também de vozes tradicionais, do saber gnômico que o autor vai recolhendo e assimilando nas margens da nação  para revitalizara nação que se tem manifestado apenas pelo saber da letra.[...]Essa revitalização segue pela via de levedação em português de signos multiculturais transpostos para a fala narrativa em labirintos idiomáticos como forma de resistência ao aniquilamento da memória e da tradição (MATA, 2003. p. 67- 68).

 

            Ao reinventar significantes e significados, o autor faz uso de um léxico que alarga as margens da imaginação “transpondo as fronteiras do interdito social e ideológico recorrendo para a reconversão do absurdo.” (MATA,2003, p. 68). A estudiosa aponta  esse aspecto como um componente da pós-colonialidade. O recurso ao insólito, ao absurdo, ao fantástico, são vistos como estratégias de enfrentamento do real. Em O outro pé as sereia, Mia Couto apresenta um universo no qual a lógica fica em segundo plano. Cita-se como exemplo a personagem Zero Madzero, cuja morte é sugerida diversas vezes, como se confirma nas citações: “Os outros rezavam a Deus. Ele rezava com Deus. Os outros rogavam ao Criador. Zero Madzero conversava com Ele, fazendo dele as Suas palavras” (COUTO, 2006, p. 19). Dotado de guelras, com sulcos e cicatrizes abertas, Zero é um ser cuja existência é tratada sob forma  de incógnita: “Porque lhe pareceu que Zero não deixava pegada atrás de si.” (COUTO, 2006, p. 33). O escritor sugere que o pastor Madzero  existe  apenas nas lembranças de Mwadia. Contudo, ela própria  não vê sua imagem refletida no espelho da barbearia e, à sua passagem, os cães ladram como se vissem algo não humano.

            A morte referida remete à perda da identidade das personagens. Mwadia viaja para sua aldeia para se reencontrar. “Mwadia, porém, já não se considerava vivente. Por isso para deixar de viver, já nem carecia morrer”(COUTO, 2006, p. 26). Mwuadia está fragmentada, a vila do passado já não existe “ em Vila Longe, todavia, só o impossível é natural, só o sobrenatural é audível” (COUTO, 2006, p. 94). A realidade é absurda e, para mensurá-la, o autor recorre ao fantástico e ao insólito como formas de recuperar o sentido. O diálogo entre Mwadia e o adivinho Lázaro Vivo é representativo nesse sentido: “ – Há  muito que lhe queria dizer isto,  Mwadia  Malunga:  você ficou muito tempo lá no seminário, perdeu o espírito das nossas coisas, nem parece uma africana. - Há muitas maneiras de ser africana. – É preciso não esquecer quem somos. – E quem somos, compadre Lázaro, quem somos?” (COUTO, 2006, p. 46).  É esse questionamento que o autor busca responder ao longo da narrativa. O relato da chegada da expedição de D. Gonçalo Silveira, em 1560, vai ao encontro da origem da história dos portugueses na África. O propósito da viagem dos europeus é realizar uma incursão católica no Império do Monomatapa e, assim, a “África inteira emergiria das trevas e os africanos caminhariam iluminados pela luz cristã” (COUTO, 2006, p. 51).

            Ao escrever para a indiana Dia Kumari, o escravo Nimi Nsundi revela consciência sobre as mudanças que a chegada dos portugueses acarretam para a África: mais do que ocupar o território, é o início da dominação de um povo sobre o outro: “os portugueses dizem que não temos alma. Temos, eles é que não veem. O coração dos portugueses está cego. A nossa luz, a luz dos negros, é para eles, um lugar escuro. Por isso eles têm medo. Não é a nossa raça que os atrapalha: é a cor da nossa alma que eles não conseguem enxergar”(COUTO, 2006, p.113).

            Em Mia Couto, o riso demonstra uma intenção satírica e denunciadora, ridicularizando determinadas situações e personagens. É o caso de Constança, mãe de Mwadia, que se torna extremamente gorda para que seus ossos não firam as mãos do marido Jesustino quando esse a agride ou o próprio Jesustino que, de tempos em tempos, troca de nome e fica em silêncio em frente a sua alfaiataria para que as tesouras não reconheçam sua voz e não tragam à tona a grande culpa que a personagem carrega. O padre Antunes, português que acompanha a expedição de D. Gonçalo, ao perceber as condições  em  que  viajam  os escravos, queima o diário de bordo e percebe que muda de cor, sente-se africano e abandona a batina para ser um curandeiro na selva africana.

            Essas situações narrativas utilizam o riso para refletir sobre a “esterilidade” de dicotomias como loucura/sanidade, razão/emoção. As recriações linguísticas de Mia Couto já anteriormente referidas possibilitam o entendimento de que, expressando as contradições da sociedade moçambicana, o cômico é

 

registro e crítica da alienação que atinge o ser humano, sátira dos símbolos da opressão e das ideologias dominantes, cura temporária, eco para novas histórias, riso irônico e paródico que recria a língua portuguesa, movimento de problematização entre o individual e o coletivo, expressão da cultura popular, é a arma de libertação, ostentando a gargalhada e o sofrimento, acenando contra todas as ‘verdades’ estáticas que ameaçam paralisar a sociedade (LEITE, 2003.  p. 134.).

 

            Dessa forma, entender a diversão que o riso proporciona significa entendê-lo como base para o questionamento e a reflexão acerca do real. A textualidade pós-colonial é um fenômeno hibridizado, no sentido de coexistência de uma pluralidade de formas e propostas resultantes da relação entre os sistemas culturais europeus enxertados e as culturas locais com seu impulso de recriar identidades e novos campos literários.  As literaturas africanas

 

relatam as narrativas desse impossível regresso ao passado, entretecendo, com sabedoria, a sua reinvenção [...] e provam que a hibridez é uma das resultantes, na combinatória com as formas ou práticas discursivas já existentes, dando origem a manifestações novas, que contêm tanto elementos da forma apropriada, quanto das nativas, em especial, das diferentes línguas e culturas nacionais.” (LEITE, 2003.  p. 37.)

 

            A leitura desses textos sugere que o sentido da obra seja uma construção social, caracterizada pela participação do escritor e do leitor no acontecimento do discurso. Assim, ler é ao mesmo tempo  traduzir  e  recriar,  obrigando o leitor a deslocar-se do lugar do mesmo

para o espaço do outro, num movimento dialético de lugares em interação dinâmica. É essa a experiência proporcionada por Mia Couto em  O outro pé da sereia. O leitor movimenta-se pelo território moçambicano conduzido por personagens que, através de suas histórias, descortinam uma paisagem múltipla, contudo, única: são as diversas faces da história de um país.

            A estrutura narrativa da obra insere-se nos padrões da literatura contemporânea: narração alternada de duas histórias que se encontram, dialogismo, quebra da linearidade. Porém, os aspectos apontados conferem-lhe identidade africana, mais precisamente de mundividência moçambicana. No contexto das formulações pós-coloniais africanas, como nas literaturas nacionais, surge a questão do cânone. Assim, a literatura de Mia Couto não se isola de um contexto mais amplo, contudo particulariza-se pela identidade própria que assume:

 

ao mesmo tempo que se submete a uma tradição dúplice, em que o sistema literário se cruza com outros sistemas culturais, numa relação interdiscursiva, está em simultâneo a criar essa tradição em termos prospectivos, deixando antever outras concretizações afins. [...] Coexistem na memória do sistema literário elementos de natureza meta-histórica, arquétipos, símbolos, esquemas formais, gerados pelas estruturas do imaginário e elementos de natureza histórica, cerimônias, rituais e folclore (LEITE, 2003,  p. 134.).

 

            Outro aspecto que merece referência é a revalorização da memória e da função social anteriormente outorgadas pela oratura.* O texto literário cumpre o papel antes impossível no mundo letrado do poder, trazendo  a oratura para o texto, reinveste a  tradição oral de um estatuto literário e reflete sobre a importância dessa memória para a cultura e a história do país. A tradição e a memória dos mais velhos é recriada pelos mais novos através da “vocalização” da letra. O narrador de O outro pé da sereia atribui à personagem Mwadia o papel de trazer à fala o aspecto do passado, por meio da leitura dos manuscritos ou dos momentos de transe em que  os revela ao casal de afroamericanos, Benjamin  e  Rosie.  Os  historiadores  chegam  à  Vila  Longe  para  resgatar   a   história  da escravidão, passado que  já não existe na memória do povo, por isso, é  forjado: “O que se perde em amnésia, ganha-se em amnistia” (COUTO, 2006, p. 276). O plano de extorquir dinheiro dos afro-descendentes é de Casuarino, personagem que representa o explorador local: atualmente muda a cor de explorador, já que se trata da exploração de africanos sobre seus pares. 

            Zeca Matambira, funcionário do correio que já não existe, é a voz da  consciência do

grupo,  lembrando a  Casuarino  a  tradição de bem receber, mas o outro insiste: “Estes gostam (de pagar) porque sentem-se culpados, está a perceber? Saíram daqui, deixaram a malta a sofrer  com o colonialismo e, agora, regressam engravatados,cheios de inglesuras, e a gente ainda passando fome” (COUTO, 2006, p. 131). O questionamento racial também surge a partir da presença dos americanos, para quem africanos são pretos, embora sintam-se negros. Mais do que uma diferença vocabular, percebe-se a diferença cultural pois, na literatura pós-colonial,  o poder associado ao uso da língua como instrumento de dominação  manifesta-se como possibilidade de manipulação das crenças e das mentalidades: “Zero Madzero torna-se um ‘vapostori’ porque o nome soava como um aportuguesamento da palavra pastorese não de apóstolos” (COTO, 2006, p. 22).

            A mudança linguística implica às vezes uma mudança nos valores e os costumes: “Aliás, desde os tempos da Revolução que o velho Lázaro Vivo deixara de se apresentar como um nyanga. Ele era, agora, um conselheiro tradicional” (p. 25). O adivinho, representante da oralidade e da crença, importa hábitos, já não busca adivinhar, informa-se sobre os acontecimentos através do celular. A crítica ao uso da língua do colonizador mostra-se nas conversas entre o escravo Nimi Nsundi e a indiana Dia: “-Pois eu não sei se faria uma traição dessas. Você sabe para que é que vai ser usada essa língua?”(p. 71).

            A personagem indiana revela perceber o processo de imposição que se sucede tanto em nível linguístico quanto religioso. Nesse sentido, Mafalda Leite afirma que “em qualquer um dos livros do autor moçambicano, se problematizam e configuram os enquadramentos e ajustamentos culturais das minorias do país, os indianos, os mestiços, os brancos [...] esses que representam outro tempo e fora dele e, talvez, por isso, sem espaço maior  do que uma ilha” (LEITE, 2003, p. 65).

                Por sua vez, Jane Tutikian (2006, p. 37) diz que “pensar a literatura  é, cada vez mais, pensar a questão da identidade”, e, acrescenta-se, seja essa identidade individual ou coletiva, do cidadão ou do país. Desse modo, em O outro pé da sereia, Mia Couto revela aspectos importantes de um povo e um país que buscam sua identidade e o reconhecimento da mesma enquanto condição de cidadania e soberania nacional. Não nega o passado da colonização, tampouco a perda da ilusão quando a independência não significou cidadania, ao contrário, trouxe a guerra entre irmãos. Esses fatos são história, por isso, também vida. Contudo, não é um olhar saudoso que o autor lança sobre seu país, mas duma esperança de quem  acredita nos ideais já há tanto perseguidos: igualdade, justiça e solidariedade. Sua arma é o livro, assim como Mwadia conhece o poder da leitura: “Um livro é uma canoa. Este era o barco que lhe faltava em Antigamente. Tivesse livros e ela faria a travessia para o outro lado do mundo, para o outro lado de si mesma” ( COUTO, 2006, p. 65).

 

REFERÊNCIAS

 

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e Renascimento: o contexto de François Rabelais. 6. ed. Brasília:Hucitec, 2008.

COUTO, Mia. O outro pé da sereia.  São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

LEÃO, Ângela Vaz. Contatos e ressonâncias: literaturas africanas de língua Portuguesa. Belo Horizonte: Editora PUCMinas, 2003.

LEITE, Ana Mafalda. Literaturas africanas e formulações pós-coloniais. Lisboa: Colibri, 2003.

PADILHA, Laura Cavalcante. Novos pactos, outras ficções. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.

TUTIKIAN, Jane. Questões de identidade: a África de língua portuguesa. Letras de Hoje, Porto Alegre, p. 37-46, set. 2006.


[1] Trabalho apresentado no IV Congresso Internacional das Linguagens – URI/Erechim/RS, maio/2010.

[2] Mestranda em Letras - Área de concentração Literatura, URI- Frederico Westphalen, RS, e-mail: rejanegehlen@yahoo.com.br

*  O termo oratura é preferido à oralidade por alguns críticos que o entendem mais representativo das construções  da sabedoria oral popular.

 

GEHLEN, p.343-350.