A ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO NA PRÁTICA PEDAGÓGICA[1]

 

The alphabetization and literacy in the teaching practice

 

Deloíze LORENZET[2]

Juliana Carla GIROTTO[3]

 

 

RESUMO

Este trabalho traz a concepção de alfabetização, como um processo de contínua reflexão, sobre o ato da leitura e da escrita, através de experiências sociais significativas. Aborda ainda a origem do termo letramento, como complemento à alfabetização de forma a valorizar o cotidiano social no qual o sujeito está inserido. Abordamos como fundamental a atuação comprometida do professor no reconhecimento dos saberes prévios dos sujeitos envolvidos, fundamental para atribuir significado e construir autonomia no processo de ensino-aprendizagem.

 

Palavras-chaves: aprendizagem, alfabetização, letramento.

 

 

ABSTRACT

This work brings the concept of literacy as a process of continuous reflection on the act of reading and writing through meaningful social experiences. Also discusses the origin of the term literacy, in addition to literacy in order to enhance the social routine in which the subject is inserted. As we approach the fundamental role of the teacher engaged in the recognition of prior knowledge of those involved, to assign fundamental significance and build autonomy in the teaching-learning process.

 

Key words: learning, literacy, literacy

 

 

INTRODUÇÃO

 

A educação é um processo amplo e complexo que abrange diversos sujeitos em diferentes modalidades de aprendizagem, que distingue e personaliza esse jeito de aprender.

A aprendizagem é um processo contínuo de construção e superação do não-aprender temporário. É fundamental ao pedagogo conhecer a bagagem que cada sujeito cognitivo[4] construiu, para compreender suas estruturas mentais e seu modo de reflexão, tentando evoluir de um quadro mais simples e menos consistente para elaborações superiores. Esta construção de conhecimento implica numa inter-relação entre sujeitos, para que, num espaço de confiança, juntos possam recriar o conhecimento.

Para que haja aprendizagem o vínculo professor e aluno precisa estar fortalecido. Primeiramente, o aluno deve alçar seu professor a um lugar de admiração, de modelo ideal, com identificação e fascínio pela relação pedagógica. E, em segundo lugar, o professor deve tratar seu aluno com respeito, despido de todas as suas certezas, sem ostentar sua posição de “dono da verdade”, nem de onipotente, para aberto à curiosidade e às descobertas do aluno, numa relação horizontal, construírem um processo de trocas de desejos, de aprendizagem. De acordo com Fernández, “não aprendemos de qualquer um, aprendemos daquele a quem outorgamos confiança e direito de ensinar”. (1991, p.52).

Desta forma, a aprendizagem envolve inúmeras características, sendo necessário uma identificação e uma relação prazerosa, tanto com o conhecimento, como também com o educador, num processo dinâmico, ativo e contínuo; pois aprendemos desde o nascimento até a morte. O aprender envolve diferentes aspectos, competências e habilidades múltiplas. É também um processo pessoal, de forma que cada um aprende e deve buscar seu auto-aperfeiçoamento, sendo também, gradativo e ascendente; pois em nossa trajetória vamos incorporando novas experiências e novos saberes de maneira a ajustar estes conhecimentos com os que já possuíamos.

O aprendizado de um sujeito é uma tarefa em constante modificação. Seu conceito já sofreu diversas alterações de acordo com as suas experiências na sociedade e o anseio carregado com o mesmo. O professor que ensinar por mera ação, de repetição, desqualifica todo o espaço educativo, que é o espaço de relação. Na alfabetização, ler e escrever por saber apenas, por estar meramente alfabetizado aponta para um índice quantitativo, diferente de quem realmente se beneficia deste conhecimento e o utiliza diariamente, tornando esse processo qualitativo e significativo.

Alfabetizar, também é um processo político, que promove a cidadania, a autonomia, quando for praticada com lucidez, pois oferece condições aos educandos de construírem sua bagagem de conhecimentos num contexto mais amplo, sendo esse refletido e apreendido pela complexidade das interações múltiplas que os ambientes, as pessoas e os objetos implicam. 

Abordaremos na primeira parte deste artigo um aprofundamento do conceito de alfabetização, seguido de uma abordagem sobre a temática do letramento. Dando seqüência, na terceira parte, o texto refere-se à inter-relação da alfabetização e do letramento. E, posteriormente, temos as considerações finais.

 

1 - CONCEITO DE ALFABETIZAÇÃO

 

A Alfabetização é um processo complexo ligado à construção do conhecimento. Atualmente, este conceito está sendo desdobrado aliado a outras áreas do conhecimento, por exemplo: Alfabetização Musical, Alfabetização Matemática, Alfabetização em Informática, além da sua origem que era para designar a aquisição da leitura e da escrita formal.

Alfabetizar é um conceito amplo, portanto, torna-se fundamental compreender as várias concepções que o envolvem. Diversos são os teóricos que analisaram este processo, são indispensáveis as abordagens do neuropsicólogo Luria sobre mediação cultural, do desenvolvimento, pensamento e linguagem de Vygotsky, das teorias da evolução da escrita de Ferreiro, estas embasadas na Epistemologia Genética de Piaget, e de Freire sobre a educação cidadã e popular. Tratando especificamente da alfabetização temos: Mary Kato, Esther Pilar Grossi, Ângela Kleiman, Magda Soares, entre outros.

Inicialmente, o ato de alfabetizar era considerado como um processo de decodificação, ou seja, que através de mecanismos repetitivos o aluno iria decorar os códigos, ou letras para simultaneamente ler e escrever.

Esta idéia foi colocada em crise a partir das diversas pesquisas e investigações que vêm ocorrendo na área da linguagem e no entendimento de como construímos o conhecimento.

Atualmente, a alfabetização não é vista como algo desconexo do mundo, ela envolve um processo de construção de conhecimentos, e carrega a pretensão de reconhecer os educandos como sujeitos autônomos, críticos na sociedade para serem sujeitos ativos, que possuam a competência de transformar a sociedade, para que seja mais justa, igualitária e cidadã. Segundo Ferreiro e Teberosky,

 

A posição que sustentamos reiteradamente é que o marco da teoria do desenvolvimento cognitivo de Piaget é apto para compreender os processos de apropriação de conhecimentos envolvidos na aprendizagem da lecto-escrita. Dizemos apropriação do conhecimento, e não aprendizagem de uma técnica. Contudo o que essa apropriação significa aqui como em qualquer outro domínio da atividade cognitiva: um processo ativo de reconstrução por parte do sujeito que não pode se apropriar verdadeiramente de um conhecimento senão quando compreendeu seu modo de produção, quer dizer, quando o reconstituiu internamente. (1985, p. 275).

 

Isso quer dizer, que cada sujeito deve reconstruir o processo de leitura e escrita percorrido pela humanidade de forma pessoal e original.

Cada educando possui diferentes interações com o código escrito e, dependendo do seu uso social, a criança elabora hipóteses que juntamente com as experiências vividas, enriquecem e significam o processo. É por isso que se enfatiza a importância de que as crianças entrem em contato com o uso social da leitura e da escrita, reconhecendo a função social da linguagem. 

Para Vygotski a aprendizagem está relacionada ao desenvolvimento e só acontece quando o sujeito está envolvido num grupo ou meio cultural. A partir das experiências vivenciadas por cada indivíduo, o significado de uma palavra pode carregar sentidos diferentes a partir de uma situação que ela vivencia, a experiência individual é mais complexa do que a generalização que se apresenta nos signos.

Neste processo de alfabetização, o sujeito-alfabetizando precisa ser permeado por situações de conflitos singulares que para uns poderá ser essencial, enquanto outros o consideram desnecessário, pois não há uma linearidade e uma uniformidade nas vivências e na identidade de cada sujeito.

A estas inquietações podemos agregar os estudos da Psicogênese da Língua Escrita de Emília Ferreiro (1985), que vieram estabelecer níveis progressivos para o desenvolvimento da escrita e que ajudam a melhor identificar a etapa vivenciada por cada sujeito em determinado espaço de tempo. O professor que reconhece estes estudos bem como, se apropriou de forma reflexiva do seu processo de alfabetização vivido enquanto aluno, pode melhor acompanhar os estágios e as individualidades de seus alunos, pelo fato de ver em seus educandos a sua experiência replicando-se. Essa situação de atualização de experiências vividas é explicada pela Psicologia, que menciona o fato do sujeito comumente poder transferir para uma situação ativa o que viveu em situação passiva, de modo que boas experiências de aprendizagem revertem numa possível relação amistosa para o aprender, e seu inverso também.   

O processo de alfabetização depende também das experiências prévias de cada alfabetizando, que acontecem antes mesmo da educação escolar, através das atividades não-formais que as crianças vivenciam e, assim, podem criar estratégias para tentar identificar, interpretar o que está no texto codificado pelas letras. Verificamos que as crianças quando estão mediante um texto, elaboram hipóteses e tem critérios investigativos, para descobrir e desvendar as informações que os jornais, os livros, as revistas, os outdoors, as placas, os rótulos comportam. Utilizam informações prévias como: tipo e tamanho de letra, se é colorida ou discreta, retiram indícios das gravuras que o texto traz e, assim, elaborando uma possível representação da mensagem. Todo este repertório de investigação está num processo mental reflexivo elaborado desde as primeiras noções que podem construir em torno da leitura, esse conjunto é o que constitui o contexto do universo de letramento, numa mútua implicação com a alfabetização.

Utilizamos a concepção teórica de Soares, para identificar as características do ato de ler:

 

Dessa forma, ler entende-se desde a habilidade de simplesmente traduzir em sons sílabas isoladas, até habilidades de pensamento cognitivo e metacognitivo; inclui, entre outras habilidades, a habilidade de decodificar símbolos escritos; a habilidade de captar o sentido de um texto escrito; a capacidade de interpretar seqüência de idéias ou acontecimentos, analogias, comparações, linguagem figurada e relações complexas, anáforas; e ainda habilidade de fazer predições iniciais sobre o significado do texto, de construir o significado combinando conhecimentos prévios com informações do texto, de controlar a compreensão e modificar as predições iniciais, quando necessário, de refletir sobre a importância do que foi lido, tirando conclusões e fazendo avaliações. (2004, p.31).

 

Da mesma forma, ao escrever percorremos o caminho das predições, de interpretar e combinar significados, na tentativa de decifrar e se apropriar deste código escrito, o mais semelhante possível ao modelo convencional. É importante que estes passos iniciais ocorram com situações significativas, a exemplo da escrita do seu nome próprio e de seus familiares, amigos e colegas, palavras e textos de seu interesse. Utilizando a abordagem teórica de Ferreiro, descrita por Kato, encontramos quatro diferentes níveis de escrita.

 

 No nível Pré-Silábico a escrita não apresenta nenhuma correspondência sonora, isto é, que não fazem correspondência entre grafia e som. [...] No nível Silábico, a criança procura efetuar correspondência entre grafia e sílaba, geralmente uma grafia para cada sílaba o que não exclui alguns casos problemáticos derivados de exigências de quantidade mínima de letras. [...] No nível Silábico-Alfabético a sistematicidade da tarefa executada pela criança se dá no sentido de que cada grafia corresponde a um som. [...] No nível Alfabético, a escrita é organizada com base na correspondência entre grafias e fonemas. (FERREIRO, apud KATO, 1994, p. 55).

 

Na passagem de um nível de entendimento para outro superior está a essência da aprendizagem que, acompanhada pela re-construção de novas estruturas, novas hipóteses e esquemas de compreensão, fazem do aprender um processo contínuo, infindo em suas possibilidades, até mesmo, no processo de alfabetizar-se permanentemente em outros/novos textos e contextos. 

É indispensável que a partir desta concepção suponhamos que quanto maiores as vivências e mais qualitativas forem as interações com materiais escritos – o que compreende a construção de um mundo letrado de significado - maior facilidade terá a criança para compreender a alfabetização. Como também, se para a família a leitura e a escrita são atividades cotidianas, maior desejo terá a criança de construir este processo para compartilhar deste conhecimento comum na família. Caso contrário, a alfabetização poderá ser um processo lento, difícil que envolverá até “sofrimento” para reconhecer o valor e a função da leitura e da escrita como formas prazerosas de comunicação.

         Conforme Freire e Macedo, “alfabetização significa adquirir língua escrita através de um processo de construção do conhecimento, dentro de um contexto discursivo de interlocuções e interação, com uma visão crítica da realidade”. (1990, p. 17).

É importante valorizar o envolvimento que o aluno-desejante do aprender dá ao processo de conhecimento, feito pela escolarização. Porque, ao reconhecer a alfabetização como processo que lhe permite autonomia no ser, fazer, conhecer e conviver[5], fica a possibilidade de associar-se à descoberta do prazer em aprender. Se o sujeito escolar aprender a conhecer, conseguirá de modo autônomo, aprender a aprender. Quando conseguir aprender a fazer, terá uma competência em experiências práticas.

Ferreiro aborda que “aprender a ler e a escrever, em uma sociedade letrada, tem o significado de apropriação de poder, de um instrumento que permite participar na sociedade como um cidadão pleno, e não como cidadão pela metade”. (1990, p. 69). Este pensamento enfatiza o processo de autoria e de identidade que a alfabetização traz, que se opõem ao preconceito com os analfabetos, de serem sujeitos constituídos como sem identidade, “sem plenitude”, tidos como submissos, incapazes, à mercê da sociedade, sem condições de participar desta conquista comunicativa.

Busco a concepção de Teberosky e Cardoso, “criar situações de aprendizagem significativas, partindo do nível conceitual real de cada criança, de seus conhecimentos, com o objetivo de que seja a própria criança quem elabore e desenvolva seu projeto, quem planifique e regule sua atividade”. (1993, p. 234).  Cada alfabetizando torna-se protagonista de sua construção, mas ao alfabetizador é dado o papel não de simples coadjuvante, porém de alguém que deve possuir competência para cumprir a tarefa de planejar, inventar situações e atividades a fim de que haja aprendizagem.

O processo de alfabetização vai se concretizando pelas situações reais formadas e as tentativas que o aluno faz para acertar, cometendo falhas construtivas, melhorando sua forma de pensar, escrever e ler, com o auxílio da intervenção docente, num espaço social e colaborativo. Como dito antes, a conquista da alfabetização é mediada por hipóteses que revelam o constante processo de reformulação das descobertas discentes.

 

2 - A ORIGEM DO TERMO LETRAMENTO

 

Antigamente, estar alfabetizado reduzia-se a ler e escrever o próprio nome. Mas, atualmente, com as constantes transformações, consideramos necessário à alfabetização não apenas em caráter de decodificação de palavras, desejamos a leitura de mundo[6], compreendendo, interpretando, utilizando em plenitude esse processo em nossa comunicação.

Em virtude dessa complexidade no processo de alfabetização contemporâneo e suas conseqüências nos âmbitos sociais, culturais, cognitivos e na inserção social letrada, surgiu a necessidade de utilizar um termo diferente, inovador: Letramento.

Etimologicamente, o termo Letramento vem da Língua Inglesa: literacy, que provem do termo littera, do Latim, significando letra, com o sufixo cy, que permite aliar a idéia de qualidade, condição de ser. Ou seja, Literacy ou Letramento é a condição de quem assume conhecer e aprender o mundo letrado.

Para Soares, “Letramento é, pois, o resultado da ação de ensinar ou aprender a ler e escrever: o estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como conseqüência de ter-se apropriado da escrita”. (2001, p.18).

Na escola precisamos ensinar com leituras e produções reais, significativas, assim como ouvimos para falar, devemos cumprir essa relação entre escrever para ser lido e ler para escrever melhor, utilizando a função prática da linguagem em nossa sociedade.

A educação precisa ter uma finalidade concreta, para que também motive o desejo de aprender, ao cumprir seu propósito na comunicação. Na própria escola é construído o espaço da ação dos sujeitos para abrir possibilidades e ampliar os conhecimentos. De acordo com Marta Kohl de Oliveira:

 

A escola é, assim, um lugar social onde o contato com o sistema de escrita e com a ciência enquanto modalidade de construção de conhecimento se dá de forma sistemática e intensa, potencializando os efeitos desses outros aspectos culturais sobre os modos de pensamento. Além disso, na escola o conhecimento em si é objeto privilegiado da ação dos sujeitos envolvidos, dependentemente das ligações desse conhecimento com a vida imediata e com a experiência concreta dos sujeitos. (OLIVEIRA, apud KLEIMAN, 1995, p.156).

 

A concepção acima nos remete a uma reflexão sobre a mediação realizada na escola, que precisa ser sistemática, relacionada com as vivências dos educandos nos contextos que estão inseridos. A nossa realidade, infelizmente, tolera o processo mecânico de leitura e escrita.  Uma aprendizagem qualitativa exige que saibamos ler e escrever exercendo as funções sociais, com um olhar crítico, um pensamento reflexivo. Aceitar a idéia de alfabetização como ato repetitivo é concordar com a sociedade excludente, não permitindo a autonomia e a respectiva humanização imprescindível para que cada sujeito sinta-se um cidadão em plenitude. Magda Soares aponta que

 

Alfabetização e letramento são, pois, processos distintos, de natureza essencialmente diferente; entretanto, são interdependentes e mesmo indissociáveis.  A alfabetização - a aquisição da tecnologia da escrita – não precede nem é pré-requisito para o letramento, isto é, para a participação em práticas sociais de escrita, tanto assim que analfabetos podem ter um certo nível de letramento: não tendo adquirido a tecnologia da escrita, além disso, na concepção psicogenética de alfabetização que vigora atualmente, a tecnologia da escrita é aprendida não, como em concepções anteriores, com textos artificialmente para a aquisição das “técnicas” de leitura e de escrita, mas através de atividades de letramento, isto é, de leitura e produção de textos reais, de práticas sociais de leitura e de escrita.(SOARES, apud RIBEIRO, 2003, p.92).

 

Ou seja, podemos afirmar que um sujeito alfabetizado, pode não ser um sujeito letrado, por ter sua alfabetização construída num processo sem significado e reflexão. Muitos são analfabetos funcionais, que conhece simplesmente a decodificação da leitura e escrita, mas não a utiliza como função social.

Da mesma maneira, podemos identificar que um sujeito letrado é aquele que usa socialmente as práticas letradas em seu convívio, conforme as demandas e necessidades que vivencia. É aquele que se apropria desse mecanismo e o utiliza em seu cotidiano, para orientar-se de maneira autônoma.

Como educadores, é essencial que tenhamos comprometimento com o ser humano que pretendemos, queremos formar. Através de nossas práxis estará incutida a sociedade almejada. É fundamental aliar à nossa prática os ideais de transformação das desigualdades, a fim de que todos conquistem seus direitos de Educação, não apenas em acesso, mas em qualidade.

 

3 - A INTER-RELAÇÃO: ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

 

Atualmente, entendemos a Alfabetização como um processo que se inicia muito antes do ingresso dos sujeitos na escola e não tem limite para terminar, pois no decorrer da vida continuamente estaremos nos alfabetizando. Nossa sociedade é letrada e está cercada de materiais escritos, conhecimentos socialmente construídos e que transitam no cotidiano de todos nós, ao qual devemos ter acesso e domínio.

A alfabetização e o letramento são processos complementares, inter-relacionados, sendo que um facilita a aquisição e a importância do outro. Quanto mais entendemos a função social da linguagem, no uso da leitura e da escrita melhor será nosso nível de letramento.

De acordo com Ribeiro, “Letramento - procura compreender a leitura e a escrita como práticas sociais complexas, desvendando sua diversidade, suas dimensões políticas e implicações ideológicas”. (2003, p.12).

A escola, como espaço de aprendizagem, deve superar a manutenção da hegemonia social e abrir espaço para a promoção da igualdade que suporta a diferença, com uma educação transformadora e cidadã. Assim, precisa trabalhar a alfabetização com fascinação e encantamento, despertando o imaginário e a subjetividade, para que estes sujeitos ao longo da vida preservem seus hábitos de leitores e escritores, utilizando como função social sua capacidade de letrados.

A sala de aula é um espaço de diversidade, cada sujeito traz seu repertório, sua bagagem cognitiva, e como alfabetizar é uma tarefa complexa com níveis diferenciados, nada melhor que oportunizar a interação e a riqueza das desigualdades, relacionando saberes entre professor(a) e alunos(as).

Moura (1999, p. 213) aponta que no processo de ensino-aprendizagem o educador deve partir dos interesses e realidade dos educandos, tendo comprometimento na sua atuação, uma vez que

 

Os motivos dos alfabetizandos devem servir de motivação para os alfabetizadores. Devem despertar-lhes o interesse e o desenvolvimento de atitudes no sentido de levar a sério a tarefa de alfabetizar, de pesquisar, de aprender, junto com eles, de entender a importância do planejamento e da organização da prática como extensão das exigências que são feitas nas práticas sociais mais amplas. (MOURA, 1999, p.213)

 

A relação entre alfabetizadores e alfabetizandos deve partir do diálogo e do processo constante de construção do conhecimento como identidade mútua, por isso é fundamental que o educador se coloque como sujeito inconcluso, contraponto o caráter autoritário de uma educação bancária que repassa o conhecimento para quem não o tem.

A atuação dos educadores deve ter como referência uma leitura crítica da sociedade compreendendo o papel da educação nesta conjuntura, enfrentando atitudes ingênuas e neutras que negam seu sentido político. Por isso, abordamos o pensamento de Freire (1992, p.23) apontando que 

 

Do ponto de vista crítico, é tão impossível negar a natureza política do processo educativo quanto negar o caráter educativo do ato político. Isto não significa, porém, que a natureza política do processo educativo e o caráter educativo do ato político esgotem a compreensão daquele processo e deste ato. Isto significa ser impossível, de um lado, como já salientei, uma educação neutra, que se diga a serviço da humanidade, dos seres humanos em geral; de outro, uma prática política esvaziada de significação educativa.

 

Além disso, o educador deve ter uma postura consciente sobre a necessidade da formação constante, do estudo e da reflexão sobre a sua prática. Buscando a partir das teorias a compreensão dos contextos históricos, sociais e culturais em que está centrado sua atuação, contribuindo para que o educando reflita e seja sujeito consciente desta realidade, atuando nela e transformando-a.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A aprendizagem não é feita de certezas, mas de inquietações, de crises e dúvidas que nos projetam às novas descobertas. Nesta constatação, observamos que na atuação do professor é necessário que seja incorporado como característica essencial, a atenção para cada sujeito. Observando atentamente os processos de ensino-aprendizagem identificamos sua evolução ou algumas dificuldades presentes.

 Para tanto, cada educador deve ter consciência sobre sua inconclusão e a convicção de que não há um limite cognitivo, uma estabilidade, mas sucessivos progressos. Deste jeito, é essencial que vivamos em constante formação e busca de saberes. A atuação do educador no processo educativo deve estar centrado em princípios de humildade e reconhecimento do conhecimento cultural e histórico do educando.

Ao ler podemos interagir e desfrutar com criticidade do pensamento dos outros, enquanto que, ao escrever, podemos comunicar com autonomia e criatividade o próprio conhecimento, exercendo a habilidade do letramento e sua função social.

Por tudo isso, é indispensável que se alfabetize letrando, ou seja, reconstruir a leitura e a escrita a partir do mundo vivenciado, criando um agradável vínculo através de práticas reais, contextualizadas e significativas. Acreditando que todos têm possibilidades de aprimoramento e dependemos uns dos outros para nos constituirmos em uma sociedade melhor.

 

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[1] Trabalho apresentado no IV Congresso Internacional das Linguagens – URI/Erechim/RS, maio/2010.

[2] E-mail: delolorenzet@hotmail.com

[3] Mestrado em Educação na Universidade de Passo Fundo/RS  - girottojuliana@yahoo.com.br

[4] Sujeito cognitivo, conforme a abordagem de Alicia Fernández, (1991), é o sujeito aprendente, que tem desejo de aprender.

[5] Fazendo uma analogia a Delors que diz ser a educação, ao longo de toda a vida, sustentada por quatro pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos, aprender a ser”. (2003, p.101).

[6] - Leitura de mundo, conforme Paulo Freire, (1990), vai muito além da leitura da palavra, exige a participação crítica de todos os cidadãos, sobre a realidade.

 

LORENZET & GIROTTO, p.390-398.