PEDAGOGIA da Alternância E CASA FAMILIAR RURAL AGROFLORESTAL ALTO URUGUAI: uma prática de interações, saberes e aprendizagens[1]

 

Interchange pedagogy and the casa familiar rural agroflorestal alto uruguai: a practice of interections, knowledge and learning

 

Idanir ECCO[2]

Paoline BRESOLIN[3]

 

 

RESUMO

O presente artigo aborda aspectos sobre a “Pedagogia da Alternância e interação escola, família e comunidade” apresentando pontos conceituais e históricos da Pedagogia da Alternância, bem como sua relação com a interação escola, família, comunidade, uma vez que esta proposta é apresentada como uma alternativa educacional almejando atender às necessidades dos alunos e das famílias do campo. O texto é resultado de um trabalho de conclusão de curso, cujo objetivo maior consiste em conhecer qual a contribuição da Pedagogia da Alternância na interação entre escola, família e comunidade na concepção dos monitores que atuam na Casa Familiar Rural Agroflorestal Alto Uruguai, localizada no Povoado Sérvia, no município de Barão de Cotegipe, RS. Assim, apresenta uma breve conceituação, histórico e características da Pedagogia da Alternância, sua relação com o princípio da interação e por fim, a sistematização e resultados da pesquisa. Voltada para o desenvolvimento do meio rural, a Pedagogia da Alternância permite a vivência de um projeto de construção e comprometimento com o saber. Os dados apontam que nas práticas e atividades de cada alternância os monitores proporcionam uma aprendizagem para a vida, levando em conta os saberes e vivências dos alunos.

 

Palavras-chave: Pedagogia da Alternância. Casa Familiar. Interação.

 

 

ABSTRACT

This article is about "Alternation Pedagogy and interaction between school, family and community" by presenting conceptual and historical aspects of the Alternation Pedagogy, and its relationship to the interaction between schools, families, communities, since this project is presented as an educational alternative for farmer students and their families. The text is a result of a final academic paper, whose the principal objective is to understand what the Alternation Pedagogy contributes in the interaction between school, family and community after the report of the monitors who work at the “Casa Familiar Rural Agroflorestal Alto Uruguai”, located at the Povoado Sérvia, in the city of Barão de Cotegipe, state of RS. So, this report provides a brief conceptualization, history and characteristics of the Alternation Pedagogy, its relationship with the purpose of interaction and finally, the systematization of this search results. Made for rural people the Alternation Pedagogy allows the experience of a construction project and commitment to knowledge. The data indicates that the practices and activities of each monitor provide a learning for life, taking into account the knowledge and experiences of students.

 

Key words: Alternation Pedagogy. “Casa Familiar”. Interaction.

 

 

INTRODUÇÃO

 

O presente texto é resultado de um trabalho de conclusão de curso cujo tema é “Pedagogia da Alternância e interação escola, família e comunidade”. Além da pesquisa bibliográfica, também buscou-se investigar “Qual a contribuição da Pedagogia da Alternância na interação entre escola, família e comunidade, na concepção dos monitores que atuam na Casa Familiar Rural Agroflorestal Alto Uruguai, localizada no Povoado Sérvia, no município de Barão de Cotegipe, RS?”

Partindo da idéia de que esta proposta de educação por Alternância, não surge como uma oposição ao sistema educacional vigente, mas como uma forma dos alunos estudarem e aprimorarem conhecimentos sem deixar o meio em que vivem, almejando uma melhoria na qualidade de vida de sua família e da comunidade, surgiu a intenção em pesquisar esta proposta educacional.

A Casa Familiar Rural Agroflorestal Alto Uruguai, localizada no Povoado Sérvia, no município de Barão de Cotegipe-RS, constituiu o universo da pesquisa e os sujeitos foram  os monitores que atuam na referida Casa.

Assim, o presente artigo, estruturado em três partes, inicia apresentando o texto está estruturado em três partes: inicia apresentando conceitos, histórico e características da Pedagogia da Alternância, seguido da descrição dos princípios que fundamentam a interação escola-família-comunidade nesta proposta e, como terceira parte, a análise dos dados, coletados com os sujeitos participantes, buscando identificar ações desenvolvidas pela Casa Familiar Rural Agroflorestal Alto Uruguai, que efetivam a interação escola, família e comunidade.

 

1 PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA: BREVE CONCEITUAÇÃO, HISTÓRICO E CARACTERÍSTICAS

 

A Pedagogia da Alternância é uma proposta de educação voltada para o desenvolvimento do meio rural, permitindo a vivência de um projeto de construção e comprometimento com o saber. Ela busca respostas à condição do campo, procurando resolver problemas a partir de uma tomada de consciência, sendo um instrumento de transformação e que tem como foco principal a realidade deste meio. Desta forma, propõe

 

a alternância da presença dos alunos entre a escola e a comunidade como concepção de diálogo educativo. Utiliza-se de instrumentos pedagógicos próprios, busca um processo de formação docente diferenciado apropriado e, visa o fortalecimento da relação escola/comunidade na gestão, organização e coordenação da proposta educacional. (PALITOT, 2007, p. 17).

 

A partir Pedagogia da Alternância é possível desenvolver uma proposta baseada na perspectiva da reflexão ativa, transformando a escola do discurso em escola da ação. É por meio da interação dos diversos sujeitos envolvido neste processo que a aprendizagem se concretiza dentro de uma perspectiva global, abrangendo todas as atividades e dimensões humanas, valorizando as pessoas a partir de sua situação de vida. De acordo com Gimonet (1999, p. 44), a Pedagogia que baseia-se na Alternância significa:

 

- Alternância de tempo e de local de formação, ou seja, de períodos em situação sócio-profissional e em situação escolar;

- Mas a Alternância significa, sobretudo, uma outra maneira de aprender, de se formar, associando teoria e prática, ação e reflexão, o empreender e o aprender dentro de um mesmo processo. A Alternância significa uma maneira de aprender pela vida, partindo da própria vida cotidiana, dos momentos experienciais, colocando assim a experiência antes do conceito.

 

O processo histórico do qual surgiu a Pedagogia da Alternância, contextualiza-se num modelo de educação onde o ponto de referencia partia do meio urbano. Segundo Speyer (1983, p. 107): “A educação escolar ainda carrega o legado de colônia e império em que se implantaram modelos europeus para os filhos dos grandes proprietários [...]”. Considerando a história da educação, contata-se que a escola se destinava a educação da elite, numa visão de mundo das classes dominantes. Tal ideologia inspirou o sistema escolar, deixando fortes marcas no mundo rural.

Nesta realidade, surgiram as primeiras experiências educacionais da Pedagogia da Alternância, em 1935 na França, onde um adolescente se recusava a freqüentar a escola na qual tinha sido matriculado. Esta situação levou seu pai, juntamente com outros agricultores e o padre do pequeno vilarejo, a refletir sobre a educação que estava sendo oferecida para os jovens no meio rural e procurar alternativas para reverter este problema. Esta iniciativa foi referência para que eles encontrassem uma solução:

 

Criar uma escola que não prende adolescentes entre paredes, mas que lhe permita aprender através dos ensinamentos da escola, com certeza, mas também através dos da vida cotidiana, graças a uma alternância de estadias entre a propriedade familiar e o centro escolar. (GIMONET, 2005, p. 76).

 

A primeira “Maison Familiale”[4], reuniu quatro jovens de três famílias dispostas a vivenciarem a experiência, que, depois de decorridos alguns meses, já se mostrava nitidamente produtiva. Os alunos que freqüentavam as Maisons Familiales Rurales (MFR’s) eram filhos de agricultores, por isso o planejamento era baseado no estudo da realidade agrícola e organizado juntamente com as famílias.

As experiências da Pedagogia da Alternância passaram a ser experimentadas em outras regiões da Europa – sendo a Itália o primeiro país a implementar esse modelo, em 1961 – e, no final da década de 60, no Brasil, onde as primeiras iniciativas aconteceram no Espírito Santo com o nome de Escolas Famílias Agrícolas (EFAs). Hoje, várias são as propostas da Pedagogia da Alternância em todo o país, recebendo diferentes denominações com pequenas diferenciações e adaptações em cada região (M.F.R.E.O. – Maison Familiales Rurales d’Education e Orientataion; E.F.A. – Escolas Famílias Agrícolas; C.F.R. – Casa Familiar Rural; M.F.R – Maison Familiar Rural; C.E.F.F.A – Centros Familiares de Formação por Alternância), mas todas ligadas a proposta inicial e com o propósito da formação, educação e promoção de jovens e adultos dos meios rurais.

A proposta por Alternância possibilita um processo de ensino-aprendizagem dinâmico, que acontece em espaços diferenciados e alternados, valorizando o aprender pelo fazer, por meio de experiências e situações diárias, baseando-se numa ampla rede de conhecimentos e atitudes que possibilitam a interação entre a reflexão e a experiência. “No quotidiano da vida, o alternante realiza aprendizagens espontâneas, informais e aleatórias ao contato do meio, das situações, das pessoas”. (GIMONET, 2007, p. 141). A aprendizagem concretiza-se nas relações sociais, na cooperação e na parceria.

 

A Alternância não consiste em dar aulas aos jovens, e em sequência pedir-lhes que apliquem isto no terreno. Mas ao contrário, o processo de aprendizagem do jovem parte de situações vividas, encontradas, observadas no seu meio. Elas passam a ser fontes de interrogações, de trocas e o CEFFA o ajuda a encontrar suas respostas. (FORGEARD, 1999, p. 67).

 

É por meio desta proposta de Alternância que acontece a ligação e interação dos espaços escolares e comunitários, levando em conta, tanto a formação integral, quanto a contribuição desta educação para o desenvolvimento do meio onde o educando está inserido, uma vez que a diversidade de situações que acontecem são suportes de aprendizagem para o alternante.

 

2 O PRINCÍPIO DA INTERAÇÃO NA PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA

 

Dentre os significados gerais do termo “interação”, podem ser destacados, neste contexto, as seguintes definições: influência mútua de órgãos ou organismos inter-relacionados (do indivíduo com a sociedade a que pertence); atividade ou trabalho compartilhado em que existem trocas e influências recíprocas; comunicação entre pessoas que convivem; diálogo, trato, contato; conjunto das ações e relações entre os membros de um grupo ou entre grupos de uma comunidade. Cabe, também, definir o termo “interagir”, que neste contexto, significa: ter comunicação, diálogo (com outrem) em dada situação (familiar, profissional); comunicar-se relacionar-se; compartilhar determinada atividade ou trabalho com (outrem). (HOUAISS; VILLAR, 2001).

Os diversos espaços educativos que existem na sociedade possibilitam a interação entre escola, família e comunidade por meio de diversas formas de mobilização e organização que partem da proposta da Pedagogia da Alternância. Assim, pensar numa educação voltada para o meio rural exige conhecimento das necessidades dos envolvidos nesse processo, levando em conta os aspectos de um modo próprio de vida social. Toda a vida quotidiana do aluno deve ser considerada.

 

Assim, a alternância possibilita um diálogo que é fundamental para a formação do ser humano – o diálogo entre o mundo da escola e o mundo da vida, a teoria e a prática, o universal e o específico, enfim uma escola que, enraizada na cultura do campo, contribui para a melhoria nas condições de vida e de trabalho dos agricultores(as), e principalmente numa formação humana e criativa da pessoa. (SILVA, 2007, p. 58).

 

A família e a comunidade são destacadas como um espaço de origem, a escola como agente integrador de conhecimentos e saberes de diversos sujeitos. Segundo Palitot (2007, p. 18):

 

Os instrumentos pedagógicos da Alternância possibilitam às escolas que a utilizam realizar a educação nas três dimensões possíveis, que são: a educação formal (escola), a educação não-formal (práticas educativas realizadas na comunidade e na sociedade) e a educação informal (família).

 

Por estes aspectos, a Pedagogia da Alternância da condições e contribui para formação de jovens participativos, podendo ser uma alternativa para a educação do campo, uma vez que “É também o palco de uma vida social no meio de um grupo de vida”. (GIMONET, 2007, p. 140, grifos do autor).

O conjunto dos períodos que os jovens passam na família e na escola possibilitam uma formação sócio-profissional do educando, no comprometimento com a formação do seu caráter, uma vez que este sente-se no compromisso do desenvolvimento pessoal e coletivo do meio em que vive. Segundo Gokhale (1980 apud ALVES, 2008, p. 16) “A família além de servir de base para a futura sociedade, desempenha também papel fundamental na vida social do aluno. A educação familiar bem fundamentada possui papel importante no desenvolvimento do comportamento produtivo do discente.”

Num plano global, a escola, a família e a comunidade são “instituições parceiras” e tem a função de socialização. Em cada uma delas, esta tarefa é diferentemente conduzida e praticada (ALVES, 2008). Parolin (2003 apud ALVES, 2008, p. 20) afirma que “A escola e a família são instituições independentes, porém, nunca isoladas, e de atuação obrigatoriamente conjunta”.

Pelo exposto está evidente que a Alternância propicia uma participação do jovem nos mais diversos aspectos da sua formação. Compreendida sob este enfoque faz sentido a relação que a Pedagogia da Alternância tem com o homem e a sociedade, numa proposta de aprimoramento constante, num ponto de vista ético, político, pedagógico, social e didático. Isto possibilita o desenvolvimento contínuo de entornos propícios para que os alunos se desenvolvam num todo, criando hábitos de pensar, agir, sentir, saber e conhecer, com maiores chances de se tornarem cidadãos capazes de escolherem as melhores opções de cidadania.

 

3 CASA FAMILIAR RURAL AGROFLORESTAL ALTO URUGUAI: UM PERFIL VIVENCIAL DA PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA PEDAGOGIA

 

As entrevistas realizadas com os monitores da Casa Familiar Rural Agroflorestal Alto Uruguai possibilitaram identificar, na concepção deles “Pedagogia da Alternância” justifica-se porque alterna-se o período escolar. Os jovens ficam uma semana na Casa Familiar e duas em casa. De acordo com os sujeitos participantes da pesquisa, isto possibilita a aplicação, na propriedade, do que é aprendido na Casa Familiar, além de possibilitar uma maior interação com a família. Foram identificadas, também, nesta categoria, respostas referentes à aplicação, na propriedade, do que é aprendido e das suas experiências para obter resultados; uma metodologia de ensino que permite a interação entre a família e o jovem, possibilitando uma mudança de concepções e hábitos de uma maneira conjunta; a Pedagogia da Alternância tem na sua metodologia um sentido da condução da vida e do ser humano e uma proposta que respeita os aspectos de origem dos alunos para a formação de um conjunto. As falas a seguir  representam o exposto: A Pedagogia da Alternância, eu acho assim, dentro de uma pedagogia eu acho que ela funciona bem, porque uma semana eles estudam tempo integral e depois o que eles aprendem lá na escola eles voltam pra casa pra... no caso ajudar os pais[....].(Sujeito 4); [...] os aspectos de origem deles são respeitados e orientados para serem conduzidos de uma forma positiva na vida profissional deles. [...]Essa é a Pedagogia da Alternância, é assimilar o eu, não como diferente, mas como cada um único[...] (Sujeito 3).

 

[...] a Pedagogia da Alternância, de todas as pedagogias que eu conheço, ela tem na sua metodologia um sentido da condução da vida, da condução do ser humano de uma forma, eu vou dizer original. A diferença toda está em que tudo que o aluno, que o jovem que chega na Casa Familiar Rural pra trabalhar Pedagogia da Alternância traz... se ele traz a timidez, a timidez vale, se ele traz a euforia, a euforia vale [...]. ( Sujeito 3)

 

É possível perceber, nesta perspectiva, uma proposta de transposição dos conhecimentos, reafirmando a importância dos saberes e das vivências dos jovens, numa perspectiva de aprender para transformar a realidade (FREIRE, 1996). De acordo com Gimonet (2007, p. 38) “Cada meio de vida representa um suporte de atividades e de experiências de várias naturezas, uma reserva de saberes diversos e múltiplos. Cada meio de vida destes é portador de uma cultura local que se faz presente nos fatos e nos gestos, na linguagem e nos comportamentos”.

Por meio das entrevistas realizadas, numa segunda categoria, foi contatado que todos os sujeitos participantes acreditam que os conteúdos e a forma como eles são trabalhados contempla os objetivos e a proposta da Pedagogia da Alternância. Os sujeitos apresentaram motivos como: as atividades são realizadas de acordo com a necessidade dos alunos; os conteúdos selecionados de acordo com o que os jovens precisam para aplicar em sua propriedade, estudando, em cada alternância, o que vai ser colocado em prática nas semanas que eles permanecem em casa; a partir das vivências dos alunos as situações-problema são superadas em conjunto e, por meio desta proposta por Alternância a educação acontece na interação entre os jovens e os monitores, resultando num aprendizado com alegria e satisfação. O exemplo citados pelos sujeitos reafirmam estas ações: Por exemplo, dentro do que se trabalha dentro da Casa Familiar Rural, a química deixa as pessoas confusas. Então vamos fazer sabão que daí se descobre que a química é aquela [...] (Sujeito 3).

 

[...] a forma com que os conteúdos são passados e na escolha dos conteúdos, a gente não passa qualquer conteúdo ou não vai ter uma grade específica e a gente vai seguir essa grade com todas as turmas. É dentro do que o jovem pretende desenvolver na propriedade é que é passado o conteúdo. (Sujeito 2).

 

Na sequencia da pesquisa, por meio das entrevistas realizadas com os monitores, foi possível identificar algumas ações que possibilitam perceber a aplicação no contexto familiar do que é aprendido na escola e vice-versa. As principais práticas e ações apontadas pelos sujeitos foram: visitas de estudo para conhecer a realidade dos alunos e acompanhar o trabalho que está sendo feito; a confecção de sabão de álcool, compotas de doces, geléias, a estruturação da horta e implementação de novas atividades como gado de leite, suinocultura, avicultura, fruticultura e outras; reuniões desenvolvidas com os pais dos alunos; entrevista realizada com o grupo familiar e conversas com os jovens no início de cada alternância. A seguir, as falas dos sujeitos comprovam estas ações: A gente busca sempre ta interagindo com a família e saber como está o convívio do jovem com a família, se há dialogo, se ele passa pra família o que ele aprende na Casa Familiar e se a família está se agradando com o método de ensino.( Sujeito 2);  Eles contam, eles dão as declarações deles, os depoimentos deles, eles falam se deu certo se não deu.[...] então é bom porque eles fazem uma troca e eles contam o que acontece na propriedade, na família, e o que a gente vê na escola. Interage. (Sujeito 4).

Os monitores destacaram, também, as principais ações que possibilitam a interação entre a escola, família e comunidade, são elas: o mutirão para a construção da nova sede da Casa Familiar, palestras, cursos, jogos, gincana, Olimpíada e viagens de estudo que envolvem toda a comunidade. Desta forma, a formação por Alternância possibilita, para o alternante, transições de um lugar de vida a outro, de um tipo de experiência a outro, de diferentes campos de conhecimentos, do individual ao coletivo, num intercâmbio num intercambio de atividades formais e informais que fazem parte do processo de formação. (GIMONET, 2007). Assim, os alunos tem a possibilidade de interagirem e conhecerem outras realidades para perceber as mudanças que podem ser feitas nas suas propriedades. A prática destas atividades possibilitam entender que as “[...] relações não se dão apenas com os outros, mas se dão no mundo, com o mundo e pelo mundo” (FREIRE, 2007, p. 30).

Em relação a participação da comunidade neste processo, numa perspectiva de desenvolvimento local, todos os sujeitos participantes responderam que, além de ser uma apoiadora, a comunidade disponibiliza os espaços e materiais para os jovens realizarem as atividades. Levando em conta os espaços que a comunidade disponibiliza, os sujeitos citaram a Escola São José – também localizada no Povoado Sérvia – onde acontece a interação e a comunicação entre todos os alunos e as propriedades da localidade para desenvolver projetos e realizar atividades. Os monitores avaliam que o que acontece é recíproco, a Casa Familiar ajuda a comunidade, assim como a comunidade ajuda a Casa Familiar em vários aspectos. Uma colabora com a outra para o desenvolvimento local. Os depoimentos dos participantes comprovam estas afirmações: A comunidade participa, ela apóia, é uma apoiadora, porque se não tivesse a comunidade acho que ninguém se engrandeceria tanto (Sujeito 1);

 

[...] eles sempre precisam e nós precisamos deles. Há uma troca [...] quando eles estão lá a gente ajuda e quando a gente precisa eles também estão dispostos a nos ajudar, colaborar. A comunidade ajuda porque sabe que vai ter retorno. (Sujeito 4).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

            A Pedagogia da Alternância tem em sua metodologia uma proposta de educação que possibilita uma formação baseada na vida, nas vivências e experiências dos jovens alternantes, a fim de estimular os educandos na busca de suas potencialidades. Além disso, ela contribui para o desenvolvimento do meio rural, numa perspectiva de melhorar a qualidade de vida das famílias frente à diversidade de situações que acontecem nesta realidade. Dessa forma, a escola é apresentada com um agente integrador da vida social e familiar do jovem, contribuindo para um processo de ensino-aprendizagem dinâmico, ativo e reflexivo.

 Por meio do estudo realizado, foi possível, além da pesquisa bibliográfica, conhecer qual a contribuição da Pedagogia da Alternância na interação entre escola, família e comunidade na concepção dos monitores que atuam na Casa Familiar Rural Agroflorestal Alto Uruguai. A entrevista realizada com os quatro monitores da Casa Familiar possibilitou identificar ações realizadas no dia-a-dia dos alternantes que efetivam a interação em questão.

            Os dados analisados mostram que nas concepções, práticas e atividades realizadas pelos monitores, a interação entre escola, família e comunidade é concretizada e contempla a proposta da Pedagogia da Alternância, uma vez que: 

 

[...] são eles que indicam o caminho, dinamizam a atividade ou deixam de fazê-lo, injetam sentido. Seu conhecimento do meio, das práticas profissionais, sua atitude, seu relacionamento com o meio profissional, familiar e social dos alternantes, seu saber-fazer pedagógico, o lugar e o valor que conferem a esta atividade no processo de formação tornam-se fatores de seu êxito. (GIMONET, 2007, p. 37).

 

A Casa Familiar Rural Agroflorestal Alto Uruguai operacionaliza uma proposta educacional em que os educandos incorporam os conhecimentos de acordo sua realidade e vivências. Pelos processos técnicos simplificados, adquire multifunções, estabelece metas para si, sua família e sua comunidade. Enfim, todos fazem parte da sua teia, especializando-se no todo.

Por meio da formação em alternância é possível fazer com que o jovem estudante sinta-se um administrador daquilo que faz, um idealizador de ações comunitárias voltadas às suas realidades e daqueles com quem convive. Ele precisa sentir-se valorizado, realizado, feliz e gostar do que faz, experimentando a vida, buscando suas próprias soluções frente aos problemas que se apresentam.

 

REFERÊNCIAS

 

ALVES, Ricardo de Andrade. Interação família escola: contribuições para a formação do aluno. Linhares: Faculdade de Ciências Aplicadas “Sagrado Coração”, 2008. Disponível em <http://www.artigos.com/artigos/humanas/educacao/interacao-familia-e-escola:-contribuicoes-para-a-formacao-do-aluno-5175/artigo/>. Acesso em 08 nov. 2009.

FORGEARD, Gilbert. Alternância e desenvolvimento do meio. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL DA PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA, 1., 1999, Salvador. Anais. Salvador: União Nacional das Escolas Família Agrícola do Brasil, 1999, p. 64-72.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários a prática educativa. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

______. Educação como prática da liberdade. 30. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007.

GIMONET, Jean-Claude. Nascimento e desenvolvimento de um movimento educativo: as Casas Familiares Rurais de Educação e de Orientação. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL DA PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA, 1., 1999, Salvador. Anais. Salvador: União Nacional das Escolas Família Agrícola do Brasil, 1999, p. 39-48.

______.  A Alternância na formação, um caminhar no coração da complexidade. In: Congresso Internacional, 8. 2005, Foz do Iguaçu. Anais Família, Alternância e Desenvolvimento. Promoção pessoal de coletiva: Chave para o Desenvolvimento Rural Sustentável. Foz do Iguaçu: Associação Internacional dos Movimentos Familiares de Formação Rural, 2005.

______. Praticar e compreender a Pedagogia da Alternância dos CEFFAs. Petrópolis, RJ: Vozes, Paris: AIMFR, 2007.

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

PALITOT, Maria de Fátima de Souza. Pedagogia da Alternância: estudo exploratório na Escola Rural de Massaroca (ERUM). 2007.  100 f. Dissertação (Magister Scientiae) – Universidade Federal de Viçosa. Viçosa – MG, 2007.

SILVA, Maria do Socorro. A Formação Integral do Ser Humano: referência e desafio da Educação do Campo. Revista Formação por Alternância, Brasília: União Nacional das Escolas Famílias Agrícolas do Brasil, v.1, n. 5, ano 3, 2007 p. 45-61

SPEYER, Anne Marie. Educação e Campesinato: uma educação para o homem do meio rural. São Paulo, SP: Edições Loyola, 1983.

 


[1] Trabalho apresentado no IV Congresso Internacional das Linguagens – URI/Erechim/RS, maio/2010.

[2] Mestre em Educação UPF/RS e Professor da URI Campus de Erechim/RS. E-mail: idanir@uri.com.br

[3] Licenciada em Pedagogia E-mail: paolinebresolin@hotmail.com

[4]Expressão francesa que significa “Casa Familiar Rural”, referente às escolas ligadas a proposta da Pedagogia da Alternância.

 

ECCO & BRESOLIN, p.448-455.